Interferências: quando a dança interage com a arquitetura dos espaços


O Cine-Teatro Louletano acolheu, no dia 26 de maio, um espetáculo de dança que não se limitou ao tradicional palco, mas percorreu diversas zonas deste equipamento cultural. Para além disso, os bailarinos não eram profissionais, mas cidadãos comuns que frequentaram a oficina de pesquisa e criação coreográfica dinamizada pela associação corpodehoje.

Texto: Daniel Pina | Fotografia: Daniel Pina

Depois de, em abril, ter estado em Tavira, a Associação Corpodehoje levou a cabo mais uma «Interferências», sob a liderança da coreógrafa Ana Borges, desta feita em Loulé, que culminou com uma performance final, no Cine-Teatro Louletano, no dia 26 de maio. O projeto assenta em oficinas de pesquisa e criação coreográfica sobre o tema dança/corpo/espaço/arquitetura, nas quais os participantes são colocados na situação de criador enquanto multiplicador e desmultiplicador dos elementos que os espaços físicos lhes oferecem como material de criação artística.
Na génese está uma estética ligada aos movimentos de dança americana dos anos 60/70 do séc. XX, de coreógrafos como Trisha Brown e Yvonne Rainer, onde a dança interage com a arquitetura e tem como objetivo a democratização do corpo na dança. Ana Borges cria uma ligação ao espaço, com o corpo como caminho, como sua extensão, seu prolongamento e, nesta ligação poética, desenvolvem-se ligações sensoriais e cinéticas que absorvem o espaço como segunda pele. “O «Interferências» começou em 2005, na altura no Jardim Botânico, em Coimbra, seguindo-se as escadarias do Teatro de São Luís e outros espaços. As oficinas são direcionadas para a comunidade em geral, para pessoas com ou sem experiência em movimento ou dança e procuramos perceber como os espaços, por si só, dão material para se criar movimento, como se o corpo vestisse aquele espaço”, descreve Ana Borges.
Neste conceito, a estrutura base da performance é criada previamente, mas depois adapta-se, altera-se, consoante o local onde vai ter lugar, de acordo com as paredes, os corredores, as escadas. As oficinas têm uma duração de 20 a 30 horas, começando no fim-de-semana anterior ao espetáculo final, e este não acontece no palco tradicional, mas num percurso pelo espaço onde decorre. Por isso, em Loulé, a ação teve início no exterior do Cine-Teatro Louletano, percorrendo, depois, o hall, as escadas, os bastidores, até desembocar no palco. “Inverte-se um pouco o papel do espetador, que não fica sentado na cadeira a assistir a algo, mas acaba por intervir também no espetáculo. Deixa de haver uma barreira invisível em que o público está de um lado e o ator do outro e a proximidade entre quem dança e quem assiste é muito grande”, refere Ana Borges.
«Interferências» é, deste modo, diferente em dois aspetos fundamentais: coloca público e bailarinos lado a lado e os bailarinos são, eles próprios, cidadãos comuns, com pouca ou nenhuma experiência ou formação em dança. “É um processo complexo e intensivo e todas essas questões são trabalhadas e debatidas desde o início da oficina. Há uma primeira fase de autoconhecimento do corpo, de como ele se move em relação com os outros bailarinos e com o espaço físico. Os participantes depressam constatam que existe um trabalho de escuta interior, de desenvolvimento pessoal, que lhes traz benefícios positivos em termos de afirmação, atitude e entrega”, observa a encenadora.