«Liberdades» explicou o 25 de abril aos mais novos


De 23 a 26 de maio, o Teatro Lethes apresentou «Liberdades», peça encenada por Jeannine Trévidic e protagonizada por Elisabete Martins e Sara Mendes Vicente que pretendeu dar a conhecer, ao público mais jovem, a Revolução dos Cravos, data que marcou profundamente a história recente de Portugal.

Texto: Daniel Pina | Fotografia: Daniel Pina

«Liberdades» é mais uma peça da responsabilidade do VATe – Vamos Apanhar o Teatro da ACTA, com a particularidade de, neste ano, ser levada a cena no Teatro Lethes, ao invés de no autocarro de dois pisos pertencente ao serviço educativo da Companhia de Teatro do Algarve. Assim, de 23 a 26 de maio, muitas crianças, professores e familiares tiveram a oportunidade de assistir a esta encenação de Jeannine Trévidic que teve como fonte de inspiração os livros «O 25 de Abril Contado às Crianças… E aos Outros», de José Jorge Letria e «O Tesouro», de Manuel António Pina e que foi interpretado pelas atrizes Elisabete Martins e Sara Mendes Vicente. “É um espetáculo que faz sempre sentido para assinalar a data desta revolução tão importante para Portugal. Normalmente, andamos pelas escolas da região com o intuito de falar com as crianças sobre a ditadura, o antes e o depois, e foi um desafio muito grande condensar tudo isso em 35 minutos. É um tema que está, temporalmente, bastante longe dos nossos jovens, mesmo que os pais ou avós contem histórias desse tempo”, referiu Jeannine Trévidic, no final de uma concorrida sessão logo pelas 10 horas.
Para concretizar este objetivo, os elementos da ACTA que participaram no projeto questionaram-se, a eles próprios, o que é a Liberdade – pois também eles já nasceram num Portugal pós-25 de abril – e às crianças, que não fazem ideia das dificuldades que se viviam no Antigo Regime e do muito que se conquistou desde então. “É termos liberdade de expressão, viajar, ouvir todo o tipo de música, andarmos na rua com a roupa que quisermos, falarmos com quem nos apetecer. Como trabalhamos com as escolas e, a seguir ao espetáculo, ainda há uma pequena conversa, tivemos que resumir bastante a história da Revolução”, explica a encenadora.
O humor foi uma das ferramentas utilizadas para se chegar a um «Liberdades» bastante apelativo, dinâmico, leve e bem-disposto, de forma a conseguir captar a atenção das crianças e a verdade é que a fórmula resulta, a ver pelas inúmeras perguntas que elas disparam mal termina a peça e Jeannine Trévidic, Elisabete Martins e Sara Mendes Vicente se sentam para uma conversa informal. “Houve pessoas que morreram para nós podermos estar aqui a falar desta forma e essa importância e seriedade estão presentes na peça. Usamos várias técnicas, sombras e objetos: o candeeiro como símbolo do interrogador, a luz que incidia fortemente sobre as pessoas; a mala como símbolo da PIDE, onde estariam documentos importantes; os bigodes para personificar os investigadores e censores”, descreve a responsável do serviço educativo da ACTA.
O espetáculo, entretanto, foi exatamente igual ao que normalmente anda em itinerância no autocarro do VATe, embora, ali, o palco seja bastante mais reduzido. “É uma peça para se ver ao perto, intimista. Nem convém alargar muito o espaço de cena, porque os objetos são bastante pequenos e com diversos pormenores. A banda sonora é outro complemento essencial, um ator extra, incluindo várias entrevistas sobre o que é a liberdade”, refere Jeannine Trévidic. “Perguntamos qual é o som da liberdade, o seu cheiro, a que ela sabe, e as respostas assemelham-se a um poema. Estamos a falar do passado e, de repente, viajamos para o presente e o próprio público reflete sobre essas perguntas”.