As malas e chapéus de Maria
João Gomes foram uma das atrações do desfile do estilista Filipe Faísca na
recente edição da Moda Lisboa, com a empreita de palma algarvia a conquistar
muitos adeptos e a fazer disparar as encomendas da marca «Palmas Douradas». Uns
dias depois, de regresso a São Brás de Alportel, a empresária e artesã falou
dos seus projetos para o futuro e da vontade de não deixar desaparecer esta
antiga tradição da serra algarvia.
Texto: Daniel Pina |
Fotografia: Daniel Pina
Filha de pais emigrantes, Maria João Gomes andou por França,
Espanha, Inglaterra e Estados Unidos da América antes de chegar, há sete anos,
a São Brás de Alportel, terra de onde é originária a família do lado paterno. O
primeiro contato com a empreita teve a observar a avó a criar peças do
verdadeiro artesanato algarvio, uma paixão que não desapareceu nas suas
andanças pelo mundo, de tal modo que frequentou um workshop, em Salir, para
aprender a técnica dos nove ramais.
Maria João Gomes, porém, queria mais e não descansou
enquanto não aprendeu todas as técnicas da empreita, de tal modo que, hoje, é
ela que dá workshops, mas a principal atividade é a elaboração das suas
próprias peças originais. Uma veia criativa que já tinha dado nas vistas
enquanto residiu em Madrid, período durante o qual realizou várias exposições
de pintura. “Um dia, a minha mãe ofereceu-me uma balsinha típica, daquelas que
se levava para a escola, e fiquei logo com vontade de aprender. Já tinha feito
coisas enormes em renda para colocar nas paredes e, na empreita, comecei
precisamente pelos murais, que tiveram bastante sucesso. Os ingleses apreciam
muito essas peças, para colocar no teto ou numa mesa, com um vidro por cima”,
conta.
A empresária cedo se apercebeu, contudo, que não há muitas
pessoas a trabalhar com a empreita de palma algarvia, normalmente artesãos de
idade já avançada, o que coloca em risco esta arte ancestral. “Eu já estou a
plantar palmeiras numas terras que herdei e noutras que a minha mãe recebeu do
meu avô e que, mais tarde, serão para mim e para a minha irmã. O problema é que
a palmeira demora muito tempo a crescer”, indica a entrevistada, revelando que
passa grande parte dos seus dias na serra a apanhar a matéria-prima para o seu
ofício. “Não sabia que ia ter tanto sucesso, por isso, ando muito tempo no mato
a reunir as folhas da palmeira. Depois, as palmas devem secar metade ao sol e
metade à sombra, mas eu coloco-as em «salchicha» para secar à sombra. Deste
modo, ficam mais verdes mas, quando secam totalmente, ficam douradas”, aponta
Maria João Gomes, daí o nome escolhido para a sua marca - «Palmas Douradas».
Depois da palma seca, é preciso ser rachada, ou seja,
separar as folhas, antes de serem cortadas e molhadas, por serem bastante
duras. O passo seguinte é ripar a palma, para ficar toda com o mesmo tamanho, e
só depois se pode avançar para o trançado. “Eu cozo com linha de cobre, como se
fazia antigamente, e com palma, faço o que se chama baracinha ou tamissa. Tudo
à mão, aqui não há máquinas”, garante, o que faz com que uma simples mala
consuma quase duas dezenas de horas de trabalho árduo, sem contar com o forro.
“O Filipe Faísca viu alguns produtos que eu tinha expostos na Tertúlia
Algarvia, em Faro, falou comigo e encomendou-me três malas e seis chapéus para
o desfile dele da Moda Lisboa. Foram três dias quase sem parar e, mesmo assim,
só consegui terminar três malas e três chapéus. A minha casa ficou parecida a
uma cabana e os meus filhos viveram à base de sandes e ovos mexidos durante
três dias”, recorda, com um sorriso.
