Dão nas vistas em qualquer lugar
Jogando com as palavras como ninguém
Sabem como hão-de contornar
As mais diretas perguntas
Aproveitam todo o espaço
Que lhes oferecem na rádio e nos jornais
E falam com desembaraço
Como se fossem formados em falar demais
P’ra levar a água ao seu moinho
Têm nas mãos uma lata descomunal
Prometem muito pão e vinho
Quando abre a caça eleitoral
Desde que se veem no poleiro
São atacados de amnésia total
Desde o último até ao primeiro
Vão-se curar em banquetes, numa social
Sempre que se descortinam eleições no horizonte, invariavelmente, vem-me à memória uma canção composta em 1982 pelo saudoso Luís Pedro Fonseca e popularizada pela cantora/intérprete Lena d’Água. O tempo passa, as gerações também e a letra certeira continua atual!
A democracia surgiu em Atenas no século V (a. C.). Os atenienses, enquanto cidadãos, podiam expressar as suas ideias, participar em reuniões e candidatar-se a líderes da sua comunidade. Surgiram então alguns indivíduos com o desejo de alcançar o poder através de qualquer meio: os demagogos. Através dos seus dotes oratórios, facilmente seduziam o povo. Tal procedimento encantatório provocou a reação de alguns filósofos (especialmente Aristóteles e Platão), que se opuseram a essa forma de manipulação.
Segundo Aristóteles, a democracia era uma forma válida de governar, mas que continha certos perigos, uma vez que os demagogos podiam usá-las para seu próprio benefício. Platão, ao comprovar que algumas pessoas se amparavam na democracia e enganavam o povo com falsas promessas e atitudes desonestas, considerou que a democracia poderia não ser um bom sistema de governo.
Volvidos cerca de dois mil e quinhentos anos, o pensamento do poeta, dramaturgo e jornalista austríaco Karl Kraus espelha e define uma forma de proceder e de estar, que se consolidou enquanto procedimento político ao longo dos séculos: “O segredo do demagogo é fazer-se passar por tão estúpido como a sua plateia, para que esta imagine ser tão esperta como ele”.
Num sentido genérico, a demagogia pode ser qualquer tipo de técnica de discurso ou mesmo um estilo político que tem o objetivo de seduzir as pessoas. Um político demagogo pode apelar aos sentimentos, sensações e aspirações de um povo (geralmente os mais pobres), criando falsas informações e promessas que não serão cumpridas. Por isso, as palavras demagogia e populismo encontram-se muitas vezes na mesma frase, porque ambas dizem respeito a alguém interesseiro, que, inevitavelmente, enganará os seus eleitores.
Prezados leitores, desconfiai de quem usa as «conversas de café» como inspiração para a realização de programas eleitorais. Sendo a demagogia um conjunto de técnicas usadas na política, estejam atentos às várias formas de persuasão utilizadas pelos demagogos: hipocrisia, falácia, distração, bajulação, difamação, discurso vazio e mentira (promessas falsas). Porque quem vos avisa vosso amigo é!
Paulo Cunha é professor
Crónica publicada em:
https://issuu.com/danielpina1975/docs/algarve_informativo__278
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