O meu avô contava-me que, no princípio dos tempos, os meses de Janeiro, Fevereiro e Março tinham 30 dias. Certa vez, Fevereiro acusou os irmãos de serem muito brandos, mas que ele, sozinho, haveria de conseguir matar todos os carneiros. Começou, então, a espalhar tragédias ao longo dos dias do seu mês, colhendo através de cada uma delas um vasto número de carneiros. Quando chegou ao dia 28, os seus irmãos, percebendo que quase todos os carneiros tinham morrido, revoltaram-se e roubaram-lhe os dois dias seguintes, para que não cumprisse o seu desiderato. Depois disso, Janeiro e Março ficaram com 31 dias e Fevereiro com apenas 28. «Se assim não fosse, Fevereiro conseguiria matar todos os carneiros», concluía ele, sempre que contava a lenda. Depois, começava a desfiar as tragédias de Fevereiro: a chuva e o frio persistentes, o nevão de 1954, o ciclone de 1941 (que arrancou o telhado da sua casa), o grande sismo de 1969.
Destes trágicos acontecimentos, o menos publicitado será o Ciclone de 1941, pelo reduzido número de imagens dos estragos que provocou no Algarve, ainda que a destruição provocada em Lisboa ou Sesimbra espelhe o que se passou um pouco por todo o país. Em 1941 ninguém falava em alterações climáticas. Todas as atenções da Europa e do Mundo estavam centradas nos conflitos militares da Segunda Grande Guerra Mundial. As previsões do tempo eram as desse tempo e a comunicação de alertas demasiado tardia.
O monstro nasceu a Oeste da Irlanda no dia 14, descendo pelo Atlântico e atingindo Portugal com toda a violência. Ainda nesse dia atingiu os Açores com velocidades entre os 230 e os 240 Km/h, alterando o volume das marés. Por cá, sem imaginarem o que se passava no meio do oceano, os marítimos de Olhão já lamentavam os estragos provocados nas suas embarcações, que foram atiradas contra o cais por um forte temporal. No início da tarde do dia 15 todo o mar se agigantou, embatendo violentamente contra a costa, enquanto os ventos ciclónicos que sobravam a 130 Km/h varriam o território nacional, colhendo dezenas de vidas e causando estragos incontáveis.
No Algarve perdeu-se toda a floração das amendoeiras, uma das principais produções agrícolas da região. Muitas casas ficaram danificadas, tendo muitas perdido o telhado (entre elas a do meu avô). Milhares de árvores foram derrubadas e há notícias de choverem peixes no barrocal e de muitos poços de água doce ficarem com a água salobra por vários meses.
Em Albufeira, sofreram estragos o passeio marginal e a esplanada, tendo caído ciprestes sobre a ermida de Nossa Senhora da Orada;
Em Armação de Pêra, o mar destruiu a esplanada, deslocou rochas enormes e estilhaçou mais de quarenta barcos;
Em Algoz, o mercado ficou parcialmente destruído;
Em Alte, choveu água do mar, salgando a água armazenada e os campos;
Em Carvoeiro, o mar invadiu a povoação, devastando os chalés, balaustradas e a escada de acesso à praia, ficando as ruas cheias de areia e pedras;
Em Castro Marim, toda a margem de terrenos cultivados ficou alagada, inutilizando todas as sementeiras.
Em Estoi, as sementeiras ficaram destruídas, e um cipreste secular “cujo tronco dificilmente seria abraçado por oito homens, foi arrancado pela raiz”, semeando a devastação em toda a aldeia;
Em Faro, caíram os ciprestes do cemitério, destruindo jazigos e levantando sepulturas, todos os eucaliptos e postes telegráficos e telefónicos do sítio das Figuras foram derrubados, caiu um muro na Rua de Alportel e o Liceu João de Deus sofreu avultados estragos, que obrigaram à suspensão das aulas. Nas ilhas barreira os estragos foram enormes, tendo desaparecido muitas barracas de pescadores da Culatra, a aldeia da ilha Ançã e o arraial da armação de pesca de atum Cabo de Santa Maria, deixando um cenário desolador;
Na Fuzeta, ficaram inundadas centenas de casas, quando a povoação foi invadida pelo mar.
Em Lagoa, abateu o armazém do Sr. Graça Mira;
Em Lagos, ficou danificada a linha férrea, caiu a parede fronteira ao mercado do peixe, foram derrubadas as chaminés de seis fábricas de conservas de peixe e de muitas casas particulares e a balaustrada do edifício da Câmara.
Em Loulé, “só na Rua do Prior aluíram cinco prédios” e o «esqueleto» dos bombeiros desabou em cima de uma habitação, propriedades ficaram limpas de arvoredo e as searas queimadas;
Em Monchique, foram destruídas casas e caiu um eucalipto sobre a Pensão Internacional, nas Caldas;
Em Odeceixe, o vento destelhou a maior parte dos prédios e as várzeas foram invadidas pelas águas do mar;
Em Olhão, muitas embarcações foram afundadas, abateu o telhado da fábrica de conservas Figueiredo e C.ª, caiu uma parede do edifício da Companhia Portuguesa de Congelação, o Cinema Apolo ficou completamente destruído, as árvores e os postes de iluminação da Rua da República foram pelos ares e a energia eléctrica foi interrompida, o moinho de vento do Sr. Tomás Saias foi derrubado;
Entre Olhão e Portimão foram derrubados 470 postos telegráficos, as linhas telefónicas foram interrompidas e os comboios impossibilitados de circular pela obstrução das linhas, tendo um rapaz sido morto na estrada de Portimão, pela queda de uma árvore;
Em Portimão, as embarcações ficaram à deriva depois das amarras terem sido rebentadas, o Largo Heliodoro Salgado ficou inundado, foram arrancadas árvores pela raiz, caíram casas, ruiu a fábrica de São Francisco “casa do descabeço, casas de enlatar, armazéns, casas dos operários – tudo o vento arrasou”, abateu o barracão da Junta Autónoma dos Portos, esmagando alguns barcos, voou o telhado dos mercados do peixe e da verdura e o cinema da Praia da Rocha ficou destruído, pessoas que estavam na rua foram atiradas ao chão ou contras as paredes dos prédios;
Em Quarteira, “o mar avançou pela povoação, derrubando casas e arrastando tudo em turbilhão”, tendo caído a parede principal do quartel da guarda-fiscal e ficado parcialmente destruída a fábrica da Sociedade de Transportes e Comércio;
Em Querença, a ponte da Fonte de Benémola ruiu com a tempestade;
Em Sagres, as vagas atingiram mais de cinquenta metros de altura, alcançando o farol e inundando a casa das máquinas. Foram arrancadas rochas com várias toneladas e projectadas a grande altura;
Em Salir, caíram milhares de sobreiros, eucaliptos e amendoeiras, ficando devastados hortas e pomares. Voou a cruz do presbitério e os jazigos no cemitério;
Em Silves, abateu a fabrica de cortiça da firma Coutinho & C.ª, onde morreu um rapaz de 13 anos, ficando ainda danificadas outras importantes fábricas de cortiça da cidade. No cemitério caíram todos os ciprestes, o mesmo tendo acontecido aos eucaliptos e cedros da Cruz de Portugal;
Em Tavira, dezenas de prédios sofreram prejuízo, as coberturas das fábricas de moagem e dos armazéns foram levadas e abateu o telhado da fábrica de conservas Balsense e na casa do salva vidas. Afundaram os batelões da Companhia de Pescarias do Algarve. Na ilha de Tavira a água do mar juntou-se à do rio.
Em Vila Real de Santo António, afundaram-se numerosas embarcações, ruíram algumas casas velhas, abateram telhados e paredes nas fábricas da vila. Na Avenida da República o vento levou as guaritas da Guarda-Fiscal. Todas as janelas da secretaria da Câmara ficaram estilhaçadas.
Pelos relatos coevos, percebemos facilmente que Fevereiro pretende mais do que matar todos os carneiros. Felizmente mantém-se com os seus 28 dias, porque, se tivesse 30 como os seus irmãos e o despertar das alterações climáticas, teríamos dias muito mais negros pela frente.
Nuno Campos Inácio é editor e escritor
Crónica publicada em:
https://issuu.com/danielpina1975/docs/algarve_informativo__281
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