Na nossa cultura, ninguém fala da morte, na inevitável morte! Não acredito que seja possível preparar alguém para a morte dos seus ente-queridos e também para a sua, mas acredito que é importante falar dela, é importante que se falem das angústias e dos medos, é importante que esta finitude (do corpo físico) comum a todos nós, deixe de ser assunto tabu para que as marcas que ela deixa sejam abordadas sem vergonha ou como um sinal de fraqueza.
Diz um grande amigo que já sou «mestrada» em perdas. Pensando bem, quem não o é quando chegamos à dita «meia idade»? A nossa história ganha dias, dias felizes e outros nem tanto, dias em que ganhamos e outros em que (também nos) perdemos. As perdas fazem parte da história de todos, e muitas vezes são elas que nos levam para onde temos que estar. Toda a perda deixa uma ferida; ferida aberta que vai cicatrizando com o chamado luto, esse processo doloroso que envolve dor e muita paciência. Os lutos que vamos fazendo são as cicatrizes que ficam no coração. As minhas, muitas, cicatrizes nunca vão ser motivo de orgulho, mas o caminho de superação para ter chegado a elas, SIM!
Toda a «ferida aberta» precisa de cura, precisa de tempo (e vontade) para se curar. É importante perceber que, quando nos apegamos à dor, habituamo-nos a ela, como se fizesse parte de nós. Sentir a dor é fundamental, mas saber largá-la, também. Todo o processo de luto deve ter um princípio e também um fim, e as feridas vão fechando e tornam-se em cicatrizes que nos dão o «calo» da experiência e também da sabedoria que vem com ela…
Já vivi e convivi com a perda de quatro pessoas muito importantes na minha vida: a minha avó Mariana que me criou, uma amiga irmã de coração, o meu companheiro de Vida e muito recentemente a morte da minha mãe. Todas elas foram mortes anunciadas por doenças que corroeram por dentro e por fora as «minhas pessoas», doenças que também levaram partes de mim enquanto assistia à degradação lenta e demorada de quem amava! Depois das perdas nunca mais somos os mesmos, mas quero acreditar que podemos ser melhores, a reconstrução de quem somos é sempre uma nova oportunidade de aperfeiçoamento e evolução. Hoje sei que sou quem sou, muito mais corajosa e determinada, graças à minha história.
E a minha história (como muitas outras) é também feita de outras perdas que não se referem à morte física de alguém, quantas vezes temos que fazer lutos dolorosos de quem ainda continua vivo, amores que não foram possíveis, grandes amizades que não foram para sempre, e até luto de versões de nós próprios que já não fazem sentido?
Numa cultura onde não somos educados para perder, só para ganhar, é difícil assumir e aceitar as fragilidades que advém dos processos de perda. Fingir que está tudo bem é a tendência que quase todos temos, parece até sinal de fraqueza o contrário, e então «varremos» as nossas dores para debaixo do tapete; o problema é que um dia as «limpezas» têm que ser feitas e de repente não sabemos o que fazer a tanto «lixo».
Procurar «receitas» para lidar com a perda é o mesmo que procurar «receitas» para o Amor: NÃO HÁ! Somos todos diferentes e muito provavelmente vamos enfrentar o luto de formas diferentes. A única certeza que tenho é que os lutos têm que ser feitos, as feridas precisam ser cicatrizadas para que capítulos da nossa história sejam encerrados. E, se não o conseguirmos sozinhos, então é importante pedir ajuda; por nós e por quem se cruza connosco… quantas vezes por estarmos feridos, ferimos os outros?
Para mim, os lutos têm sido feitos de muita aceitação, de dias em que todas as lágrimas do mundo não chegam para chorar o que não foi vivido, e de dias que as gargalhadas soam muito mais alto que a dor, e é assim que a VIDA continua…
Lina Messias é especialista em Feng Shui
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