Afirma Michel Desmurguet, autor do livro A fábrica de cretinos digitais, que o ser humano, após milhares de anos a evoluir, regride agora, em termos cognitivos e de capacidades intelectuais, devido à excessiva exposição aos ecrãs. Nesta linha, a capacidade de memória do ser humano pode atingir o mesmo nível da do peixe dourado, durando apenas uma breve volta ao aquário para depois mergulhar nas águas do Lethes (que muitos pensarão talvez tratar-se de uma estância balnear). Em contrapartida, há correntes a defender que nunca se leu tanto como actualmente, pois lê-se nos ecrãs, nas redes sociais… e o conteúdo, o teor daquilo que se lê? Não importará, não fará qualquer diferença? Por vezes, o que se faz é tresler, passar os olhos pelo início, pelo fim, sem perceber muito bem o que é dito, mas atirando uma opinião instantânea sobre algo que nem se sabe sequer o que é. Aliás, parece haver, de forma generalizada, uma fobia à leitura alimentada pela ideia de que, num mundo de cliques, de soluções instantâneas, descartáveis, fazer algo que exija tempo, concentração será um desperdício. Um exemplo dessa fobia, tive-o numa simples ida ao dentista. Após ter colocado um implante que no dia a seguir começou a abanar, dirigi-me ao consultório. A dentista que me colocara o implante não estava e fui atendida por outra que, ignorando o número do implante e da chave a usar para fazer o arranjo, transformou a minha boca num salão de bricolage, no qual foi experimentando todas as chaves existentes, comentando ainda: “se eu fosse à sua ficha, via o número do implante e da chave, mas ia ter de consultar o processo e ler…”. Se não tivesse pavimentada com o desfile de ferramentas ter-lhe-ia perguntado qual seria o problema, por acaso não saberia ler? Aliás, esta dos doutores não saberem ler, já nem sequer é nova. Há uns anos, passaram pela casa de uma amiga minha, duas pessoas a entregarem folhetos de conteúdo religioso. A empregada abriu a porta e ao ver quem era, despachou-os com: “não queremos cá nada disso porque a senhora doutora não sabe ler”. Com efeito, não foi sequer assim há tanto tempo que aprender a ler era um privilégio inacessível para muitos…

Fenómeno ainda mais estranho em tempos de fobia à leitura é a proliferação de «escritores» que parecem sair debaixo das pedras da calçada, brotando como cogumelos, acalentados, muitas vezes, por editoras fraudulentas, a lucrarem com as ilusões. Em certos casos, perdeu-se a noção da diferença entre o exercício da escrita como elemento estruturador de raciocínio, de organização do pensamento, de pendor até terapêutico e a outra, aquele que pode ser partilhada, publicada, que sofreu todo um processo de transformação, de depuração necessária para que atingisse esse nível. Creio que na raiz desta questão há precisamente a ausência de leitura, pois quanto mais lermos mais nos situamos e posicionamos no reino das palavras, maior espírito crítico desenvolvemos perante não apenas as realidades exteriores, mas também perante nós próprios. Em segundo lugar, será também uma consequência da perda das fronteiras entre o espaço privado e o público. Aliás, parece que a noção de «privado» se perdeu completamente, como se tudo fosse susceptível de ser partilhado, anunciado, apregoado aos sete ventos, quando pelo contrário, devia permanecer entre as paredes do universo pessoal, íntimo. Contudo, as redes sociais converteram-se no palco, no espectáculo do eu, dos egos insuflados, sequiosos de likes, de comentários a rasgarem uma solidão tornada quase congénita, ofuscando e aniquilando completamente o «Outro», o que pode pensar diferente – assunto sobre o qual o filósofo Byung Chul Han reflectiu, por exemplo, na obra intitulada No Enxame.

A verdade é que o espaço do Outro se dilui a partir do momento em que cada umbigo se dilata até ao infinito, invadindo tudo num turbilhão de opiniões sonoras, inconsequentes. E tudo isto determina a incapacidade da leitura que exige silêncio, recolhimento e o escancarar completo das janelas da alteridade, de modo a saborearmos a partilha de mundos bordados de palavras. Só que essas janelas, por vezes, encontram-se seladas pelo cimento do egocentrismo, da futilidade, do mau gosto, da ditadura das aparências, do mero desejo de aparecer para se dizer que se existe – “apareço logo existo”. Segundos depois dos likes (convertidos numa espécie de sal da vida), dada mais uma volta ao aquário, ninguém se lembra sequer do que viu, nem do que «leu», outro fait divers mais insignificante ainda do que o anterior ocupará o palco.

Notei nas últimas viagens feitas que não apenas os livros, mas também até os kindles (abundantes em aviões e até em comboios, há pouco tempo) foram substituídos pelo telemóvel, pelo smartphone que, tal como refere Byung Chul Han, numa entrevista dada ao jornal El País, se converteu numa ferramenta de domínio, agindo como um rosário. Contudo, é precisamente nele que a palavra se perde se dissolve, perdendo-se com ela a memória, afogada no oceano do imediatismo, da futilidade. Esta perda da palavra acarreta consequências graves no modo como nos configuramos, como interagimos, visto que como refere o neurologista Lamberto Maffei, em Elogio da palavra: “As palavras são a minha memória, a minha narrativa (…). De resto, o milagre da evolução gerou as palavras para que o homem possa narrar, para que na sucessão das gerações não se perca o património das experiências vividas”. (p.158).

Em suma, creio que esta era pós-leitura transportará no dorso a do pós-humanismo. E como refere a escritora Lídia Jorge numa excelente reflexão acerca do futuro das feiras do livro (e não só) publicada no Público do passado dia 13 de Junho de 2023: “Se sob uma cultura humanística nos matamos uns aos outros, porque não abrir a porta à pós-Humanidade?”. Por essa porta, acrescento, entraremos no absurdo reino das trevas, do vazio, da perda da memória, das palavras que nos enformam, que nos ligam uns aos outros, permitindo-nos ser, permanecer, lembrar, independentemente de todas as voltas dadas nos aquários onde giram as nossas vidas.

Dora Gago é professora

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