O Centro Cultural de Lagos rejubilou, no dia 18 de janeiro, com a apresentação de Damas da Noite, uma farsa de Elmano Sancho, na qual evoca a conflituosa reviravolta de expectativas em torno do seu nascimento, já que os pais esperavam uma menina, de nome já destinado, Cléopâtre, mas nasceu um menino. O encenador pretende, assim, dar vida a esse outro desejado de si mesmo, como se este fosse uma espécie de duplo e existisse numa realidade paralela que Damas da Noite encena.
Para erguer essa figura ficcionada chamada Cléopâtre, Elmano Sancho imergiu no mundo fascinante e provocador do transformismo. “Os artistas transformistas vestem a pele de um outro, tentam ser um outro. São flores que abrem de noite, intérpretes de uma transformação pautada pela transgressão, o desconforto, a ambiguidade, a brutalidade dos corpos e a violência das emoções”, descreve. E, através dessa interpretação paradoxal da diferença, Damas da Noite explora a presença ou ausência de fronteiras entre realidade e ficção, ator e personagem, homem e mulher, teatro e performance, tragédia e comédia, original e cópia, interior e exterior, dia e noite.
Nesse jogo de relações aposta-se a identidade como matéria fluida, «rimbaudiana», revelando o outro que somos, o estrangeiro que albergamos. Porque, antes de pertencer a um determinado sexo, o ser humano era híbrido. “No livro do Génesis (1:27), Adão teria sexo de homem e de mulher. No plano físico, o primeiro ser humano seria duplo: Deus terá criado Eva a partir da natureza feminina de Adão. No Banquete de Platão, Aristófanes evoca o mito do andrógino primitivo: não existiam dois géneros diferenciados, mas uma espécie de ser unificado”, aponta Elmano Sancho.
Os seres andróginos, orgulhosos da sua dupla natureza, da sua força e do seu poder, desafiaram os deuses e escalaram o Olimpo, a montanha onde viviam os imortais. Como castigo, Zeus separou o género masculino do feminino, com o umbigo a ser a marca física dessa separação. “Separado do Outro, o ser humano contemporâneo é incapaz de especificar o objeto da sua falta e de encontrar a razão de se sentir incompleto. Vê o mundo através do Outro sem nunca conseguir ser o Outro: a separação é um ato primitivo inerente à existência”, entende o encenador.
Para dar vida ao seu alter ego feminino, Elmano Sancho foi ao encontro das drag queens, “as damas da noite, flores que abrem ao anoitecer e exalam um perfume inebriante”. “Esta imersão no mundo do transformismo pretende dar corpo, voz e vida a esta menina desejada pelos pais, mas que não chegou a nascer, e explorar as fronteiras entre realidade e ficção, ator e personagem, homem e mulher, teatro e performance, tragédia e comédia, original e cópia, interior e exterior, dia e noite”, indica Elmano Sancho.
O confronto de todos os intérpretes com o seu «disfarce feminino» — máscara que revela uma verdade e colmata uma ausência — e a sua consequente exposição ao público recorda-nos, antes de mais, que estamos na presença de atores que praticam a sua arte através de um duplo discurso: o transformismo revela os artifícios e mecanismos da Arte Teatral e reafirma a posição do espetador. Este sabe que está a assistir a um espetáculo onde o tema principal é o próprio teatro e a representação em todas as suas camadas complexas. “Tudo é artifício: não há corpo natural, não há desejo natural, não há aparência natural, não há jogo natural. O que resta desta transformação inacabada é o corpo em busca de uma alteridade. Só então o teatro adquire autenticidade: o mundo da ficção desaparece, a personagem cede lugar à realidade complexa do ator/ser humano e o palco torna-se o lugar onde a troca entre os intérpretes e o público é feita sem designações nem máscaras”, sublinha Elmano Sancho, que partilha a interpretação de Damas da Noite com Dennis Correia aka Lexa BlacK, e Pedro Simões aka Filha da Mãe.
Texto: Daniel Pina | Fotografia: Daniel Pina
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