O ano de 2025 iniciou tingido de negro, pela partida de personalidades que inocentemente considerávamos eternas, faróis de uma intervenção política marcada pela ética, moral, sentido de serviço, valores democráticos de quem passou anos amordaçado pela ditadura e aproveitou os cravos da liberdade para contribuir para uma sociedade melhor.

Estas palavras poderiam ser dirigidas ao lagoense Vasco Rocha Vieira e a ele são extensíveis, mas dedico-as a um homem com menor dimensão social e política, mas que evidenciou ainda mais estes nobres valores, pela grande proximidade ao cidadão comum. Referimo-nos a Filipe Abreu, que serviu o Algarve na Assembleia da República em três Legislaturas.

Filipe Abreu não era natural do Algarve. Nasceu em Paços de Ferreira, em 1947, sendo o mais novo de onze irmãos, no seio de uma família de destacados republicanos, uma vez que era neto paterno de Eduardo Abreu, que foi Deputado Republicano no período monárquico e Deputado na Assembleia Constituinte de 1911.

Fixou-se no Portimão em 1967, trabalhando na hotelaria, onde acabou por ficar até ao seu falecimento, no passado dia 25 de Janeiro. No Algarve casou e constituiu família, mas mais do que isso, elegendo esta região como sua, foi uma das vozes que lutou pela regionalização e a criação da Região Piloto do Algarve.

Era pai havia cinco dias, quando recebeu a notícia da Revolução do 25 de Abril e nesse mesmo dia iniciou o seu contributo para que a Democracia ténue não fosse dominada por outros extremismos. Foi fundador do PPD/PSD de Portimão e um dos primeiros militantes do novo partido fundado por Sá Carneiro. Organizou e participou nos primeiros comícios do PSD realizados no Algarve, participou na criação da Festa do Pontal e esteve no cerco ao Governo Civil.

Autarca Portimonense, foi membro da Assembleia Municipal entre 1982 e 1985 (ano em que foi candidato a Presidente da Câmara Municipal de Portimão, sendo eleito vereador) e de 1990 a 2005. Integrou as listas concorrentes às Eleições Legislativas, sempre pelo Círculo Eleitoral do Algarve, em 1976, 1985, 1987, 1991 e 1995, tendo desempenhado o cargo de Deputado entre 1987 e 1991 por eleição, e em 1998 em regime de substituição.

Político de proximidade, que ia ao encontro das populações, foi muitas vezes porta-voz dos algarvios no Parlamento, partindo de iniciativa parlamentar sua uma série de melhoramentos realizados um pouco por todo o Algarve, de que, para memória futura, destaco: a Zona Ribeirinha de Alvor; as instalações da PJ e da PSP de Portimão; o Porto de Pesca da Baleeira; a Ponte do Arade; o Hospital do Barlavento Algarvio; ou a Barragem do Odelouca.

Pela sua mão deslocaram-se ao Algarve vários ministros, porque o seu espírito combativo e reivindicativo cativava os líderes e governantes, que por ele tinham uma enorme estima.

Abandonou na vida política ativa por motivos de saúde, mas iniciou uma nova caminhada igualmente exemplar. A forma como lutou ao longo de vinte anos contra doenças que muitas vezes colhem vidas em poucos meses, contrariando todos os prognósticos médicos, revelando uma energia e tenacidade invulgares, passou a ser visto como um exemplo para todos os que vivem maus momentos e pensam em desistir. Converteu-se num Farol de Esperança!

Sempre lúcido, mesmo nos momentos de maiores fragilidades físicas nunca deixou de estar presente onde considerava ser importante a sua presença, dando força, conselhos, espalhando sorrisos e até gargalhadas fáceis, que davam um colorido especial a eventos demasiado sóbrios.

Em todos os que o conheceram (permitam-me a presunção de começar por mim), deixou uma marca profunda de resiliência, espírito combativo e confiança. Ensinou-me que temos de ter dignidade nas vitórias e nas derrotas; que nunca devemos desistir do que consideramos ser de justiça; que o respeito não se implora, conquista-se; que a ética e a seriedade não nos impedem de cometermos erros ou de tomarmos decisões erradas, mas ajudam a evitar ou a resolver muitos problemas.

A sua vida e obra está gravada em livro e o seu nome perpetuará na memória dos que o conheceram e certamente nalguma placa toponímica. No entanto, o seu maior legado é invisível e está perpetuado nas várias obras que reivindicou e ajudou a concretizar. Para memória futura talvez faça sentido que aqueles que embarcam na Baleeira, que bebem água da Barragem do Odelouca, que recorrem ao Hospital do Barlavento, que passam pela Ponte do Arade, ou tomam um café na Zona Ribeirinha de Alvor, de vez em quando se lembrem daquele que tanto se esforçou por essas concretizações, dizendo:

OBRIGADO FILIPE ABREU!

Nuno Campos Inácio é editor e escritor

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