“E tudo começou com a pintura de um campo de basquetebol, uma chouriça assada e umas «minis». Seguiram-se os lanches, a canoagem, os almoços, as caminhadas, os dias temáticos e os passeios de barco. Muitos e bons momentos que não esqueceremos! Aquilo que aconteceu hoje é algo muito bonito e que se deve a esse trabalho contínuo diário entre pares (docentes e funcionários). É esta a escola que queremos. Profissionalismo, amizade, alegria, companheirismo e felicidade. O «pessoal não docente» é mais um elemento deste puzzle. E é por eles, todos, que estivemos juntos reconhecendo a sua importância neste processo. Todos os docentes estão gratos pelo importante papel que desempenharam. Somos todos uma só escola. Uma escola onde, juntos, podemos ser felizes. Grato a todos por aquilo que me proporcionaram” - Foram estas as palavras que o meu colega Hugo Barradas (adjunto da direção do Agrupamento de Escolas João de Deus para o 2.º e 3.º ciclos de escolaridade) escreveu num grupo social que integro, após um convívio de professores e funcionários da Escola E. B. 2, 3 Santo António – Faro, onde a plena e franca comunhão e a boa disposição foram os denominadores comuns.
Foi este evento e as palavras do meu colega, que tão bem o caracterizaram, que me fizeram regressar ao século passado, num período da minha vida em que, de uma forma menos agradável, aprendi o real significado da expressão «espírito de corpo». Tendo cumprido a recruta do Serviço Militar Obrigatório num verão quente em Vendas Novas, senti na carne e no espírito a razão por que os militares se tratam por camaradas. Rastejando por baixo de arame farpado, andando por cima de um fino pórtico com cinco metros de altura, saltando altas paliçadas, mergulhando, à noite, o corpo inteiro no lodo, caminhando grandes distâncias por campos ingremes com o M64 (equipamento de transporte pessoal) às costas, enquanto o «frita miolos» (capacete) nos cozia (literalmente) os pensamentos, nas semanas de campo, dormindo ao relento aninhados uns aos outros, tal era o frio…, enfim, descobrimos que a superação se atinge com a ajuda de todos!
«Esprit de corps» é uma expressão francesa que se refere a um forte sentimento de união, orgulho e lealdade partilhado pelos membros de um grupo. É o sentido de camaradagem e propósito comum que leva os membros a trabalharem juntos, tentando assim alcançar os objetivos do grupo. É o «espírito de equipa» ou o «espírito de corpo» que une as pessoas num grupo, promovendo a motivação e consequente colaboração mútua. Esta forma de estar pode ser encontrada em diversos tipos de grupos, como famílias, equipas desportivas, forças militarizadas, empresas, instituições e comunidades. Há quem a caracterize como uma força invisível que mantém os membros unidos, comprometidos com um propósito comum e dispostos a sacrificar interesses individuais em prol do grupo. A identidade partilhada, a lealdade e a confiança, a comunicação eficaz, aberta e transparente, o respeito mútuo e o orgulho coletivo, são as premissas básicas para potenciar o desempenho, a resiliência e a sustentabilidade destes grupos.
No meio institucional, o «espírito de corpo» traduz-se na cultura organizacional que incentiva a colaboração, o trabalho em equipa e o comprometimento com os objetivos estratégicos. Instituições com um forte «espírito de corpo» tendem a apresentar menor rotatividade de funcionários, maior satisfação interna e melhores resultados em inovação e produtividade. Cultivar o «espírito de corpo» é um processo contínuo, que exige investimento em práticas de integração, comunicação clara e valorização da diversidade interna. Convém não confundir «espírito de grupo» com «pensamento de grupo», pois tal dificultará a inovação e a autocrítica. É fundamental o equilíbrio entre a coesão e a abertura ao diálogo e à diversidade de opiniões.
Num mundo cada vez mais orientado para o sucesso individual, o «espírito de corpo» surge como o contraponto necessário. A convergência de talentos, a capacidade de sacrificar interesses pessoais e o reconhecimento de que os resultados coletivos são mais duradouros e significativos, felizmente, desafiam a lógica da competição constante. O «espírito de corpo» não rejeita a individualidade, mas valoriza a complementaridade e o contributo singular de cada um para o bem comum. Mais do que um simples sentimento de pertença, representa a energia vital que impulsiona os diversos grupos a superar desafios, a inovar e a preservar a sua identidade ao longo do tempo. Saibam e consigam os órgãos diretivos e de chefia das diversas instituições implementar esta forma de pensar, de estar e de agir. Ganharemos todos!
Paulo Cunha é professor
Crónica publicada em:
Foto: Daniel Santos
