Estou eu no sofá, enroscada numa manta polar, chá fumegante na mão, lareira a estalar — a fazer o que qualquer utilizador das redes sociais faz por estes dias: espreitar as vidas alheias — quando, entre as imagens ternurentas de uma família feliz, com pijamas a condizer, a enfeitar a árvore de Natal e as de uma influencer a sugerir visuais perfeitos para a grande noite, me surge no feed um post com um esquema intitulado: Como escrever um artigo científico.
Na última semana de novembro, senhores. Com dezembro ali ao virar da esquina! Por esta altura, as pessoas normais só querem saber se as luzes do ano passado ainda funcionam, se já é socialmente aceitável pôr a coroa na porta e onde encontrar musgo para o presépio.
Quem diabo tem uma vida tão triste, ao ponto de desperdiçar os dias mais encantadores do ano a desenhar esquemazinhos com setinhas e quadradinhos para que os investigadores não se percam?
E, pior ainda: quem é que está preocupado em escrever artigos científicos nesta altura? Se é o vosso caso — e se planeiam mesmo usar um desses esquemas — deixo-vos uma dica em forma de pergunta: Já viram algum grande investigador assinar esses rabiscos que supostamente ensinam outros a escrever? Acham mesmo que quem sabe tem tempo — ou paciência — para andar por aí a distribuir prendinhas metodológicas em modo Pai Natal académico? Vamos lá ser sérios.
E o mais deprimente é haver quem siga religiosamente estas instruções. Pobres almas. O resultado? Milhares, milhões de sequências de frases produzidas por duendes obedientes: alinhadas, impecavelmente pontuadinhas (valha-nos a Inteligência Artificial). É certo que às vezes o conteúdo… mas como recusar as receitas preciosas que lhes entram pelo monitor? Conselhos tão certeiros e infalíveis como os das cartomantes que, a partir de um T0 muito bem localizado onde Judas perdeu as botas, garantem saber como ganhar a lotaria; ou os dos iluminados autores de livros de autoajuda que mal conseguem sair da cama, mas ensinam a meio mundo como despertar o seu «potencial infinito».
Quanto a receitas para escrever artigos, estamos, portanto, conversados. A grande questão por resolver — e à qual ainda ninguém dedicou a devida e urgente atenção — é saber como ler estas pérolas da sabedoria moderna, estes frutos gloriosos da Academia. Uma missão hercúlea, mas alguém tem de a assumir. Eis, pois, o meu modesto contributo, com o rigor que a matéria exige. Ou, pelo menos, com o mesmo rigor, labor e seriedade que sustentam mais de 90 por cento destas irrepreensíveis e absolutamente fiáveis fontes de conhecimento.
Dispenso os esquemas e avanço diretamente para os tópicos. Fica tudo mais explicadinho.
1. Título: Ler sempre para ter uma ideia do assunto tratado. Em princípio, andará lá por perto.
2. Autores: Um só? É um mártir. Dois? O primeiro escreveu, o segundo (hierarquicamente superior) achou por bem assinar também. Três ou mais? É o caos: orientadores, editores, diretores de departamento, outros chefes (que como é sabido, são sempre mais do que os índios), respetivos familiares e amigos… pura lotaria.
3. Resumo: Não ler. É uma espécie de trailer concebido para garantir aos mais curiosos que o artigo é a última bolacha do pacote.
4. Introdução: Trata-se do resumo em versão alargada e mais adjetivada. Podem passar adiante sem culpa.
5. Metodologia: Serve, na maioria dos casos, para ajudar o autor a atingir o número de caracteres exigido pela revista. Ignorem.
6. Estudo de caso: Ler o título para perceber qual foi o objeto de estudo. Se parecer absurdo, desnecessário, ou francamente tolo… o melhor é confiar na intuição. Costuma estar certa.
7. Conclusão: Chama-se conclusão, mas é, na verdade, um resumo um pouco mais alargado. Se o tema do artigo vos interessar mesmo, estes são os dois parágrafos a ler.
Posto isto, e confiando numa estatística feita cá por casa — somos quatro, mas podíamos ser quarenta mil que tenho a certeza de que o resultado seria o mesmo — lembro que apenas 10 por cento dos artigos merecem ser lidos de fio a pavio. Uns mais brilhantes que outros, claro. Mas, ainda assim, trabalhos sérios.
Guardem, pois, o vosso tempo para estes. Escapem a longas horas de sofrimento desnecessário. E, já agora, não se esqueçam de que, enquanto vocês se martirizam com leituras inúteis, há quem esteja confortavelmente instalado a embrulhar presentes, a fazer laços com fitas coloridas, e a provar o primeiro bolo-rei da época.
Façam como eles: deixem os artigos em paz e entreguem-se ao espírito natalício!
Sílvia Quinteiro é professora
Crónica publicada em:
