A expressão, em título, adaptada da sinalética das passagens de nível dos Caminhos de Ferro pretende, desde logo, chamar a atenção que o Algarve, em 2026, poderá começar a viver uma revolução nos transportes, considerando a introdução do material circulante em modo elétrico, por toda a linha regional do Sul que já ficou preparada para o efeito.
Os transportes, a seguir ao problema da habitação, será, com a qualidade do emprego e a saúde, o fator determinante para a qualidade de vida dos cidadãos na região.
E, pelo menos nos transportes, poderemos ter um enorme avanço positivo se, associado ao modo elétrico e qualidade das carruagens, cada um dos municípios e a AMAL, enquanto autoridade regional do sector, fizerem integrar a renovação das respetivas concessões rodoviárias entre si em termos de horários e frequências, para aumento das acessibilidades, viabilizando a opção pública para a preferência da solução pendular casa-trabalho-casa dos nossos trabalhadores.
Também se espera que, em 2026, haja a conclusão das condições para lançar o concurso do modo ligeiro de superfície, ou metro bus, no centro mais populoso da região entre os residentes de Olhão, Faro e Loulé, integrando a Universidade e ainda o Aeroporto.
Boas notícias, portanto.
Também na saúde, estou certo que, em meados de 2026, será submetido ao Tribunal de Contas o processo para a autorização do Novo Hospital Central do Algarve, para a seguir se tramitar o respetivo concurso público internacional, mais lá para a frente e em 2028 se poder, havendo concorrentes e não havendo impugnações que o façam tardar mais, fazer a consignação e, portanto, iniciar-se a obra. Verdade que, previsivelmente, só deverá iniciar a atividade depois de 2031, mas será um fator determinante para captar profissionais de saúde para a região.
Pois «as paredes não tratam das pessoas» e compreenderemos isso da pior maneira, até lá e mais além, atendendo ao massivo abandono previstos dos lugares de prestação de cuidados de saúde, considerando o desinteresse crescente pelo stresse no SNS, pelo incentivo à utilização da oferta privada em concertação com a idade de reforma e mais, sobretudo, com a possibilidade de não aderir ao serviço de urgência, que motiva a maior preocupação na região… e sugiro que se dê a maior prioridade nos recursos e regeneração dos espaços, assim como na integração de cuidados com a modernização nos atendimentos primários.
Olhar com muita atenção, que pode mesmo piorar muito. Basta que acabe o atual voluntarismo da adesão dos profissionais que já estão desobrigados às urgências.
Na área da habitação, 2026 vai ser o ano do tira-teimas. Claro que não vão estar disponíveis já muitos mais fogos, além dos (comparativamente) poucos apoiados pelo PRR (até final de 2026) mas, ou serão lançados já os concursos públicos para, nos anos seguintes haver uma enorme produção e entrega de fogos a custos controlados, ou as promessas massivas vão soçobrar. Falhando o Governo, no seu vaticínio, de mais de 100 mil casas até 2030 e assim também os municípios.
Neste caso antecipo o maior dos receios. Não por ser pessimista, mas «não precisa tirar um curso» para se chegar à conclusão de que, mesmo havendo terrenos e havendo financiamento para tanta obra, não vamos conseguir mão de obra, nem cumprir com os preços acessíveis em tempo.
Atentemos que o volume de obras públicas, para cumprimento do PRR, nas mais diversas frentes e áreas de novos equipamentos e infraestruturas e, ainda depois, a realização dos Programas Operacionais dos financiamentos UE 2030 (que poderão ser concluídos até dois anos depois), vão criar um maior aquecimento no mercado da construção e stresse acrescido às já reduzidas capacidades de resposta empresariais do setor nacional.
Sim, teremos mesmo que inovar nos métodos e soluções construtivas disponíveis e já, ou vai correr mal contra todos nós. E não será por falta de vontade política. Como alguém dizia - «É da vida». Antecipemos medidas, em 2026, no sentido necessário ou será tarde e perderemos, também e outra vez, mais financiamentos (neste caso do BEI).
A maior surpresa poderá ser, apesar das dificuldades de alojamento que tudo condiciona, o continuado crescimento regional do sistema de investigação e desenvolvimento (I&D). Sim, olhem o que se vem passando de há anos a esta parte de forma sustentada e surpreendente que motiva esperança na qualidade produtiva, na melhoria do emprego, na captação de quadros, e, portanto, na imagem regional, com impacto, não só na sua diversificação, mas também na qualidade do setor do turismo que se vem verificando.
A inovação, a introdução de tecnologias limpas e o cuidado com os impactos e racionalidade nas soluções de desempenho nos usos da água, na rega, nas relvas e utilizações de materiais e seus desenvolvimentos, assim como as novas ofertas de produtos de vanguarda para a alimentação, cosmética, farmácia, na biotecnologia e na saúde, como na investigação científica de base, está a provocar um fervilhar de soluções, de relação com as empresas e atração de investimentos, assim como no mercado de patentes futuras fantástica.
Sim, os fundos comunitários estão a ser bem alocados e utilizados. Sim, há aqui um novo ambiente.
Jovens adultos cada mais bem preparados, exigentes e focados serão o salto de futuro que a região muito precisa, mesmo se algumas das vezes não tiverem sucesso e em todas as ações o sentido do risco, o empreendorismo, darão lugar à nova tentativa e ao progresso.
Claro que se vai notar uma alteração da participação e na cidadania. Eventualmente com inicial maior individualismo ou menor sentido comunitário, certamente com maior exigência e sentido critico.
Faz parte, acostumemo-nos e adaptemo-nos, porque o que vier virá por bem.
Claro que no contexto internacional, que tanto nos impacta e aos quase 8 milhões de turistas que recebemos/ano e também à disponibilidade de capital e aos investidores, podemos influenciar pouco (além da segurança e paz interna), mas pode ser que não corra pior, pois já estamos «em modo de aflição» nos conflitos e na desregulação/instabilidade dos mercados. Muitos já vaticinam nova crise, recessão etc., mas já vamos percebendo que os ciclos cada vez vão sendo mais curtos e rápidos. Mas afastemos os pensamentos do que não controlamos.
Vai ser mais um novo ano, desafiante. Vamos a isso.
Paulo Neves é um «ilhéu», mas nenhum homem é uma ilha
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