Para além dos conflitos armados, travamos hoje uma guerra invisível, a das fake news. Esta luta pelo controlo da informação espalha-se pela Internet e tem consequências reais. Enfrentar esta manipulação global é um desafio coletivo que exige vigilância, consciência e ação de todos.
A internet continua a ser um espaço de liberdade, mas a escala e a sofisticação das fake news transformaram‑na num campo de batalha central da manipulação global. Estudos recentes mostram que a desinformação é hoje vista como um dos maiores riscos para as democracias e para a estabilidade social em todo o mundo.
Nos últimos anos, organismos internacionais passaram a classificar a desinformação como um risco sistémico, capaz de agravar conflitos, crises políticas e desconfiança nas instituições. Relatórios globais de 2025 colocam a desinformação entre as principais ameaças de curto prazo para a Humanidade, ao lado de conflitos armados e choques ambientais.
Inquéritos internacionais indicam que a maioria das pessoas está preocupada em distinguir o que é real e falso no espaço online, e que a confiança nas notícias tem vindo a cair. Em média, cerca de 58 por cento dos utilizadores em dezenas de países dizem estar preocupados com a dificuldade em saber se uma notícia online é verdadeira ou falsa.
A utilização de fake news em eleições continua intensa: no Brasil, para além de 2018, a desinformação desempenhou também um papel relevante nas presidenciais de 2022, com forte circulação de boatos em aplicações de mensagens e redes sociais. Nos EUA, a campanha de 2020 foi marcada por narrativas falsas sobre fraude eleitoral, alimentando ataques à legitimidade do processo democrático. Em Portugal, nas eleições presidenciais de 2026, a desinformação soma, desde novembro de 2025, mais de 7,7 milhões visualizações nas redes sociais, revela um estudo do LabCom – Laboratório de Comunicação da Universidade da Beira Interior.
Desde o início da invasão russa à Ucrânia em fevereiro de 2022, o volume de propaganda digital e conteúdos manipulados disparou, com o uso crescente de vídeos e imagens geradas por inteligência artificial para influenciar a opinião pública global. Relatórios europeus e internacionais documentam campanhas coordenadas, maioritariamente pró-russas, que combinam censura interna rigorosa com a disseminação externa de narrativas falsas, visando justificar a agressão militar e desacreditar media independentes.
Perante este cenário, apoiar órgãos de comunicação independentes e de qualidade tornou‑se ainda mais crucial, pois a maioria dos estudos mostra que as fontes jornalísticas fiáveis continuam a estruturar o debate público, mesmo num ambiente saturado de desinformação. Ao subscrever media independentes, partilhar jornalismo de verificação de factos e exigir transparência às plataformas, cada utilizador reforça a infra‑estrutura democrática de informação.
No dia‑a‑dia, há medidas simples que ajudam nesta guerra pela informação, verificar a origem das notícias antes de partilhar, desconfiar de conteúdos sensacionalistas ou sem fonte identificada, recorrer a projectos de fact‑checking e usar as ferramentas das próprias redes sociais para denunciar conteúdos falsos. Ao fazer escolhas informadas e responsáveis, cada pessoa contribui para limitar o alcance das fake news e proteger o espaço público digital.
Fábio Jesuíno é empresário
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