«Veneno» foi escrito em 2014 a partir de narrativas verídicas de violência doméstica, recolhidas num universo cosmopolita contemporâneo. Neste momento, 51 por cento da população mundial vive em espaços urbanos — por razões económicas, pela melhoria das condições de vida, pela oferta de trabalho, entre outras. Veneno é também um texto centrado na ideia da decadência da família no contexto suburbano.
Se a família é o paradigma ancestral daquilo que deve ser um governo, ambos manifestam hoje a mesma ideia de crise — crise que, na sua génese etimológica, significa separar e dividir. A narrativa de «Veneno», que vai a cena, no Cineteatro Louletano, a 7 de fevereiro, incide sobre as circunstâncias e as consequências trágicas de um pai, recentemente desempregado e falido, que decide sequestrar os três filhos depois de assassinar a mulher e o seu amante. O pai e os filhos passam então a conviver num espaço exíguo e em condições precárias.
Todo o discurso do pai é construído em torno da incapacidade de aceitar o real: um delírio verosímil sobre a sociedade, a família, a política e também sobre o amor; a falência do mundo interior e do mundo exterior. O pai exerce poder e violência através da linguagem, enquanto os filhos se expressam por intermédio do canto lírico. Assim se formam dois universos incomunicáveis: o do subúrbio e o da aristocracia. O pai reúne características simultaneamente horríficas, cómicas e abjetas, revelando o homem na sua expressão mais grotesca — entre o horror e o humor.
«Veneno» aborda, fundamentalmente, as consequências da falência emocional e social, bem como a extinção de determinados valores, como o amor e a empatia, que constituem o núcleo essencial de qualquer família. Com Texto de Cláudia Lucas Chéu e Direção e Interpretação de Albano Jerónimo, com participação especial de Leonor Vasconcelos, «Veneno» integra o Programa de Formação Avançada em Artes Performativas, Interpretação e Criação – Teatro & Dança – dos encontros do DeVIR.
