Um dos passatempos mais deliciosos ao dispor do ser humano é a observação do comportamento dos animais. Os escritores que o digam (e os pintores, e os fotógrafos, e os escultores, e os cineastas, e...), quanto discorrem, de observar os animais não humanos, sobre intriga, gesto, movimento, intenção. Como se explica a clareza que escritores da Grécia antiga conseguiram nos textos em que explicam mitos fundacionais através da transformação de pessoas em animais ou de animais em pessoas? Essa poesia de metamorfoses (de tradição helénica) viria a tornar-se famosa no século VIII por Ovídio, precisamente no livro a que se chamou Metamorfoses, uma sequência de narrativas sobre como se formou o mundo e como foi decorrendo a sua história até à morte de Júlio César. Não é só em animais, ou de animais, que as entidades míticas de Ovídio se metamorfoseiam; as transformações dão-se também entre humanos (de um género para outro), entre humanos e constelações de astros, ou entre cores. Mas as mais famosas vieram a ser aquelas narrativas em que as transformações têm por protagonistas animais. Podem ser mais fabulosos, como as sereias ou os faunos, ou menos, como andorinhas ou formigas. No Livro VII de Metamorfoses, o rei Éaco pede a Júpiter que o ajude a salvar o seu povo de uma praga mortal e, ouvindo num relâmpago a voz do pai dos deuses, vê, por baixo de um carvalho dedicado a Júpiter, “formigas acartando grãos, formando longo carreiro, / carregando nas suas minúsculas bocas uma carga enorme, / e talhando o seu caminho na rugosa casca da árvore” (na tradução de Paulo Alberto). Será esse cortejo de formigas que se transformará na multidão de súbditos que regenerará o reino de Éaco – mas o interessante, ali, é perceber como o escritor deteve a atenção no movimento dos insetos, nos seres mínimos que, ainda hoje, continuam idênticas marchas laborais, e o descreveu de maneira que, tantos séculos depois, continuamos a reconhecê-lo. Outros escritores alargaram as descrições e fizeram dos animais não humanos protagonistas de relatos apaixonantes. Para Jonathan Swift, que no século XVIII publicou As Viagens de Gulliver, os cavalos representam a sociedade mais nobre, elevada acima da humana: nos Houyhnhnms (é um verdadeiro desafio, pronunciar o nome que deu àquela raça equina) tem o modelo da melhor organização social). Mais próximo de nós, entre 1936 e 1938, T. S. Eliot empreendeu a tarefa de fixar em verso as imagens e ideias que ia tendo a partir do mundo felino. Desconfiava da sua capacidade de o fazer, e claramente se via submetido, no quotidiano, à decisão dos gatos (numa carta a Polly Tandy, em dezembro de 1937, escreve que “quando um gato nos adota, nada há a fazer senão aceitá-lo e esperar que o vento mude”). Do seu trabalho em torno dessa ideia resultou em 1939, dedicado aos seus afilhados, o delicioso Livro dos Gatos Práticos do Velho Gambá (que a Assírio & Alvim editou por cá em 2019, em tradução do poeta Daniel Jonas e com ilustrações de Edward Gorey). Eliot duvidava que centrar-se apenas numa espécie de animais fosse muito entusiasmante: “talvez fosse melhor um livro que coligisse apenas poemas sobre animais”, diria, noutra carta, em 1936, ao editor Geoffrey Faber. Mas acabou por se concentrar nos gatos, e num tipo de gatos a que chamou «Jellicle cats». Foi a partir desse livro que Andrew Lloyd Weber gizou o musical Cats, estreado nos anos 80 e que ainda por aí anda.

Ana Isabel Soares é professora

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Foto: Vasco Célio