Querendo caricaturar o autarca local arrogante e vaidoso, usando o bordão humorístico que cristalizou um estereótipo sobre Presidentes de Junta de Freguesia - “Eu é que sou o presidente da Junta!”, Herman José personificou o que alguns candidatos a presidente, seja do que for, pretendem para si e para os «seus». Ao usar e abusar desta expressão de autoridade exibida, põe o dedo na ferida, expondo as pretensões de vários candidatos à direção ou presidência de diversas instituições.
«A atração pela presidência» pode resultar de múltiplos fatores: ambição, vocação, vaidade, sentido de missão ou até uma mistura de todos eles. Sendo a política um terreno fértil para o humor, pois é visível, sensitiva e emocional, nela as pessoas reconhecem os tiques dos seus intervenientes e, naturalmente, a caricatura propaga-se e persiste!
Falando de política local, a atração pela presidência costuma nascer de três impulsos amplamente humanos: a vontade de transformar, o desejo de reconhecimento e a adrenalina do poder. O desejo de reconhecimento é quase como uma força invisível que molda comportamentos, escolhas e até identidades. Não é um capricho, é uma necessidade profundamente enraizada na forma como o ser humano se desenvolve.
A psicologia vê a necessidade de reconhecimento como um dos pilares da construção do «eu». Ele atua em várias camadas: a necessidade de pertença, a regulação da autoestima e a motivação. A parte menos boa surge quando o reconhecimento deixa de ser um complemento e passa a ser a única fonte de valor pessoal, levando a manifestar os sintomas de dependência da validação externa: perfecionismo, medo de falhar, ansiedade social, sensação crónica de insuficiência e de agir para agradar, não para ser autêntico. A solução para este sintoma está em integrar o reconhecimento externo com uma base interna sólida, desenvolvendo valores próprios; autoconsciência, autocompaixão e um sentido interno de competência, por forma a que o reconhecimento dos outros deixe de ser uma necessidade vital e passe a ser apenas um reforço positivo.
O reconhecimento pode incentivar a coragem, inspirar decisões difíceis e criar um sentido de propósito. Um líder que se sente valorizado tende a liderar com mais clareza e generosidade. Quando o reconhecimento se torna um vício, o líder começa a governar para agradar, não para servir. As decisões deixam de ser estratégicas e passam a ser reativas. A autenticidade desvanece-se. O líder transforma-se num espelho dos desejos alheios, perdendo a sua própria voz.
No caso da candidatura ao mais alto cargo da nação, para a realizar os pretendentes à Presidência da República combinam motivos pessoais (ambição, visibilidade, estatuto e reconhecimento), cívicos (serviço público, defesa de valores, convicções políticas e defesa e proteção de causas) e práticos (cumprir os requisitos legais: ser português, ter mais de 35 anos e reunir 7.500 assinaturas). Muitos candidatos procuram a visibilidade e o estatuto que o cargo confere, pois constitui uma plataforma para influenciar as políticas públicas. Mesmo sem poderes executivos diretos, o Presidente da República pode moldar o debate público e vetar leis, deixando assim uma marca simbólica e institucional, algo que atrai pessoas com vontade de construir um legado e ficar na história do país.
E você, prezado leitor, estaria preparado para dar o «corpo ao manifesto», candidatando-se a Presidente da República Portuguesa? Eu confesso que não. Senão vejamos: uma campanha exige exposição constante, escrutínio permanente e tomada de decisões rápidas; a crítica pública – justa ou injusta – torna‑se diária; a responsabilidade sentida pode gerar ansiedade, exaustão e stress prolongado; a vida pessoal passa a ser analisada, comentada e julgada; uma campanha presidencial exige recursos financeiros significativos; uma campanha malsucedida pode afetar a imagem pública a longo prazo; a agenda é imprevisível e exaustiva; as pressões dos partidos, conselheiros e grupos de interesse podem limitar a autonomia; a necessidade de agradar a múltiplos setores torna a tomada de decisões mais difícil; qualquer declaração pode ter impacto social e diplomático.
Não, definitivamente, nem o cargo de «Presidente da Junta» almejaria! Contento-me em partilhar a presidência do lar com a minha mulher, dialogando e estabelecendo consensos para que a família tenha as melhores condições de vida e sobretudo seja feliz. Simples, mas um modelo eficaz para escolher o meu presidente, seja ele qual for e do que for!
Paulo Cunha é professor
Crónica publicada em:
Foto: Daniel Santos
