Normalmente associamos a União Europeia aos fundos, à regulamentação, à fraqueza política e dependência na defesa.
Neste quadro de grande turbulência internacional, incertezas sobre as amizades e interesses, começámos por voltar a ver mais do mesmo sobre a UE. Dependência e até subserviência.
Sim, a imagem de todos os altos dignatários políticos, deste lado do Atlântico, sentados de frente à secretária do Presidente do outro lado, é má memória visual que há de permanecer.
Ainda tivemos mais uns valentes tropeções depois de mais outras ameaças, em que o Sr. Nato se associou da pior maneira ao desconcerto, até e que… de repente, a Europa vai brilhando de forma estruturada e com interesse surpreendente em benefício de todos.
As contramedidas de reação às ameaças tarifárias foram anunciadas pela Comissão e a suspensão da aprovação de novo acordo comercial com o Tio Sam ficou engavetada no Parlamento Europeu.
Mais, de repente, quando tudo faria pensar que levaríamos mais 25 anos para fechar o acordo com a América Latina (por emperramento de alguns do costume do lado de cá), eis que é assinado com a presença de todos, tendo o presidente do Conselho falado na língua espanhola, mas antes em português a agradecer a relação com o Brasil para este resultado, tendo o vizinho do Norte ficado a lamuriar.
Se tudo parecia a correr bem, depois de Davos, mais uma ameaça contra o território dos nossos amigos e mais outro retrocesso. E eis que a Europa já assinou ainda outro acordo global com a India, em que António Costa mostrou a vantagem da nossa relação com o mundo de há seculos.
Em poucas semanas envolvemos mais de 2 mil milhões de cidadãos do mundo em acordos comerciais e em aprofundamento de relações com a Europa e ainda fomos (Portugal não) colocar as botas das nossas tropas no gelo para mostrar defesa e solidariedade ao lado de 55 mil ilhéus que integram a nossa União.
Um volte-face perfeito, associado ao nosso amigo gigante do Canadá que, de montada deu um banho de civilização ao outro, que embeiçou, e disse que estava connosco e até trouxe os chineses, a seguir, para esta arena de equilíbrios e desconfianças medidas no mundo louco que estamos a viver.
As últimas tentativas de fazer substituir a ONU por um Conselho de Paz privativo paralelo está a receber as recusas merecidas (Portugal a fazer de conta) pois que não servimos para limpar os interesses expostos por quem aprofundou o problema e quer vender uma nova Riviera.
De repente já reparo que passei de tratar a UE por eles e assumi o nós e agora acrescentei o outro.
Estou esperançado neste caminho que levamos.
Mas atento porque, conforme o meio do mandato do outro se alcança, o desespero pela sua não renovação e pelo tempo necessário para forçar as suas mudanças vai acicatar o engenho e os efeitos que produz, mesmo já tendo a medalha alheia e se ter desvinculado da missão de paz que, pensava eu, seria a mais importante para qualquer cidadão do mundo, quanto mais para um responsável que deixou de ser líder.
Aproveitemos para reforçar a nossa União, em confiança, solidariedade, mas essencialmente na eficácia das tomadas de decisão, aprofundemos a União que não é uma Federação de Estados, mas não pode ser uma federação de egoísmos e vaidades, agora que deixámos de abanar o rabo.
Vamos dar-nos ao respeito, pela História e progresso comum em que podemos voltar a ter um papel principal ao nível, pelo menos da força económica no mundo que ainda somos e dos valores que defendemos.
Voltemos a olhar para a nossa porta leste pois, chega de distrações.
Isto pode ainda acabar bem.
Paulo Neves é um «ilhéu», mas nenhum homem é uma ilha
Crónica publicada em:
