Voltamos hoje ao tema FADO. Durante várias crónicas iremos abordar as origens, história e até consequências sociais desta forma musical que é tão nossa, tão portuguesa.
Na verdade, não existem elementos seguros para podermos afirmar com certeza a origem do fado, pois versões há para todos os gostos e, como exemplo, podemos referir opiniões de dois dos nossos mais conhecidos musicólogos, como Rui Vieira Nery e Aberto Sardinha, que defendem teses bem diferentes a saber. O primeiro baseia a sua opinião que o fado terá a origem nas modinhas brasileiras como o «Lundum», uma música dos escravos brasileiros e que terá chegado a Portugal na primeira metade do século 19, trazida por marinheiros portugueses, tendo nos anos subsequentes sofrido alterações até chegar ao que é hoje. A suportar esta tese está o facto de que, nas primeiras músicas dentro do género, as letras abordavam sobretudo histórias ligadas, não só ao mar, mas também às terras existentes para além deste.
Já Alberto Sardinha é defensor de que o fado tem as suas origens na Idade Média, tendo por base as cantigas interpretadas por trovadores e jograis, pois contêm características que ainda hoje o fado conserva, defendendo que até as «cantigas de amigo» abordavam a temática do amor tal qual ainda hoje se faz. Teria assim feito um trajeto das feiras e mercados da província para a capital, radicando-se finalmente em Lisboa, onde haveria de se manter durante muitos anos, dando até origem aos chamados retiros de fado.
Seja como for, a palavra «fado» só nos aparece cerca de 1840, significando música popular, com um ritmo particular, tocado na guitarra e que tem por letra poemas chamados fados.
Embora concordemos com a data do aparecimento do termo, o acompanhamento à guitarra é muito duvidoso. Como dissemos, ao chegarem a Lisboa, os jograis começaram a cantar e declamar poemas nos restaurantes da capital, sobretudo à noite em troca do jantar, pois na capital se quedavam vários dias em que duravam os mercados e feiras. Além da refeição obtinham também algum lucro com a vendas aos comensais dos poemas por si elaborados (esta prática ainda hoje se mantém por parte dos fadistas que vendem os seus discos nos locais onde cantam). Acontece que já nesse tempo os melhores restaurantes tinham pianistas residentes que começaram a acompanhar os ditos trovadores nas suas atuações, havendo até documentos com imagens condizentes, reforçando assim a tese de que, no início, o fado era acompanhado ao piano e à viola, que normalmente era tocada pelo próprio jogral.
E chegámos assim às casas de fado, matéria a que nos debruçaremos na próxima crónica.
Valentim Filipe, músico, professor aposentado, dirigente associativo
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