Já aqui escrevi, em várias ocasiões, acerca do interior da região, das suas particularidades, dos seus problemas, bem como sobre as suas potencialidades. Também já me expressei, em outras tantas, sobre o turismo e o caminho que este está globalmente a tomar. Reflecti sobre estes dois temas – cujos âmbitos de intervenção ocupam parte significativa do meu tempo profissional e pessoal –, e como se relacionam. Neste texto regresso a estes mesmo tópicos e espero contribuir para uma melhor percepção de como a relação entre Turismo e Interior é cada vez mais necessária e estratégica para a região.
Num recente artigo publicado sobre as tendências do turismo para 2026, Mia Taylor, escritora de viagens bastante experiente e premiada, chama a atenção para uma maior procura pela imersão nos territórios, por viagens com mais significado e actividades hands-on, ou, dito de outra forma, experiências mais profundas, criativas e participativas nas culturais locais. Destaca ainda o tema da sustentabilidade, que tenderá a assumir-se como factor decisivo na escolha dos destinos de férias por parte de um crescente número de viajantes, existindo cada vez mais uma enraizada preocupação com a necessidade de impactar positivamente para o bem estar das comunidades locais, a sua economia e para a preservação dos valores ambientais e culturais.
Nesse artigo salienta-se também as fortes perspectivas de uma crescente tendência pela busca do agroturismo e de actividades no mundo rural, onde os próprios viajantes poderão ter papel activo nos trabalhos do campo. E, claro, sem esquecer algo que já se falava em 2025 e que se prende com a procura por locais menos massificados, menos conhecidos e afastados das multidões.
Transportando estas perspectivas para a nossa realidade algarvia, os territórios rurais e do interior surgem de imediato como locais cujo potencial encaixa na perfeição nas referidas tendências. São nesses espaços onde encontramos a maioria dos projectos de agroturismo em funcionamento e onde outros podem emergir. É onde ainda guardamos um enorme capital cultural e natural que pode proporcionar as tais experiências e os tais momentos únicos de contacto com o património e o autêntico modo de vida. É onde a tranquilidade, o silêncio e a segurança adquirem especial valor para quem procura fugir das massas. Tudo isto – e muito mais ainda – parece óbvio e inquestionável.
Contudo, o lento e gradual afastamento do interior face a estas dinâmicas parece imparável. O despovoamento prossegue, encadeado num ciclo vicioso que se espelha no abandono, na perda e na degradação da paisagem, do património, das aldeias ou dos saberes. Os escassos serviços existentes limitam o desenvolvimento da actividade. A inexistência de gestão, manutenção ou valorização do património público, também não ajuda a contrariar essa situação.
Não sendo um fim em si mesmo, o turismo pode alavancar, consolidar e fortalecer as actividades económicas locais, torná-las mais resilientes e garantir melhor qualidade de vida a quem vive, trabalha e gere estes territórios. Pode e deve ter um papel no apoio à revitalização destes espaços. Mas, para tal são necessárias abordagens integradas em rede, eficientes, de médio-longo prazo, com visão e objectivos claros, construídas de baixo para cima e com estabilidade financeira. São precisas vontades persistentes de longa duração, incluindo políticas. Há passos a serem dados, é certo, mas há muito a fazer – e rapidamente – se queremos aproveitar estas tendências e tornar o Algarve mais coeso, diversificado e resiliente. Temos de aproveitar!
João Ministro é empresário e engenheiro do ambiente
Crónica publicada em:
