Vim a um salão perto de casa. Começar o ano novo com cabelo velho é meio caminho andado para correr mal. Quase tão arriscado quanto errar na cor da lingerie.
Sento-me e aguardo. À minha frente, três mulheres apertam-se num pequeno sofá.
Olho em volta. Procuro, em vão, a clássica mesinha das revistas. Pergunto onde está. A cabeleireira explica que já não existe:
— Agora toda a gente traz o telemóvel e lê o que quer.
Fico em silêncio. Concentro-me também eu no pequeno ecrã. Mas protesto por dentro. O que é uma ida à cabeleireira sem revistas cor-de-rosa? Sem a leitura do signo de há três meses? Sem a notícia que nos relembra a festa de casamento da atriz que, entretanto, já se divorciou, reconciliou e voltou a separar-se? Onde estão as páginas puídas por dedos curiosos e descuidados, a capa que teima em agarrar-se ao último agrafo?
Sinto falta do ritual.
E o silêncio? Como perceber a ausência da conversa neste espaço? Da bisbilhotice com cheiro a laca e óleo de permanente? Não me refiro ao comentário lacónico sobre quem vai entrar no próximo reality show ou quem faleceu na telenovela. Falo do mexerico suculento, capaz de transformar uma cidade numa pequena aldeia. Nada de comentários avulsos — “esta anda a levar injeções para emagrecer”, “a outra esticou tanto a cara que mal mexe os olhos”. Nada disso!
O que se exige é calhandrice da boa, feita com empenho, reveladora de talento para meter o nariz onde não se é chamado. Por este andar, deixamos de saber da vida dos vizinhos — da real e da outra.
Não resisto a encetar conversa. Liberto a bisbilhoteira que há em mim e pergunto por novidades. Sendo a única que não tem como deitar as mãos a outra distração, a cabeleireira aproveita de imediato a deixa. Falamos da saúde de algumas clientes habituais, do curso do filho, da reparação do carro do marido, do batizado da neta de uma amiga comum e da madrinha que nem se deu ao trabalho de pintar as raízes… A cavaqueira alastra-se rapidamente à sala. Apenas uma senhora mantém os olhos presos ao telemóvel e não reage.
— A dona Fátima nem sequer ouve — provoca a cabeleireira.
— Estou-te a ouvir muito bem — responde, sem levantar a cabeça. — Não tenho é interesse nenhum em saber da vida dos outros. Se está gorda, se está magra, se levava a mala a “conduzir” com os sapatos.
— Largue o TikTok, senhora. Fale lá com a gente, D. Fátima? — insiste a cabeleireira.
—Deixa-me estar quieta. O “TrokTrok” é para matar o tempo. Vê mas é se te despachas. — responde.
“Matar o tempo”. Fico presa à expressão. Não deixa de ser curiosa, principalmente vinda de alguém que claramente há muito passou a barreira dos 80.
Penso em como somos constantemente bombardeados com frases que nos procuram motivar com a ideia oposta, a do tempo como oportunidade, como promessa, como bem precioso: “tens uma vida inteira à tua frente”, “tens 365 amanheceres à tua espera”, “a cada dia aguarda-te um novo recomeço”…
E o que fazemos nós à primeira oportunidade? Matamos o tempo.
Somos criaturas paradoxais. Celebramos os dias que se abrem diante de nós, lamentamos a todo o momento o facto de esta vida “ser dois dias” e, ainda assim, ficamos eufóricos quando completamos “mais uma volta ao sol” ou nos despedimos do ano velho. Como se viver fosse uma obrigação e houvesse alívio em riscar mais um ano da lista. Este já passou!
Até que chega a aposentação e ficamos sem saber como aviar tanto tempo livre.
Vale-nos sermos portugueses e termos a sorte de viver num país onde o Estado cuida tão bem de nós que nos vai poupar a essa angústia até aos 66 anos e 11 meses.
Convenhamos: é um grande descanso.
Sílvia Quinteiro é professora
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