No passado sábado assisti à missa fúnebre de um amigo. Sentei-me num banco de madeira dura, junto de pessoas mais ou menos conhecidas, e ouvi palavras antigas, repetidas com a convicção cansada de quem acredita mais no ritual do que na explicação ou, no meu caso, de quem repete para não dar nas vistas. Como só fixei duas orações e mais não sei, no meio daquela «lenga, lenga» que todos repetem, querendo mostrar a Deus que são leais e que também merecem um lugar no céu. Foi ali, naquele silêncio desconfortável, tentando esconder a minha ignorância, que numa igreja se denuncia mais rápido do que um telemóvel a tocar, que voltei a reparar na forma como a religião se entranha na nossa vida, na nossa língua. Não só nos grandes discursos, mas também nas palavras pequenas, quotidianas, que usamos sem lhes perguntar o que realmente querem dizer. «Adeus» é uma delas.
Dizemo-la com a leveza de quem fecha uma conversa, quando, na verdade, se trata de um envio. Podemos sempre acreditar que o sentido não é este, que, na pior das hipóteses, «adeus» significa, «vai ali à casa de Deus». Mandar alguém «a Deus» não é um gesto inocente. Num país católico, só vai a Deus quem deixa de existir neste plano. Ninguém vai a Deus por engano, nem em visita rápida. Vai-se porque acabou.
A reboque do «adeus» surgem as frases de conforto, esse vocabulário nacional cuidadosamente ensaiado para momentos de perda. “Foi para um sítio melhor”, diz-se com um ar de alívio, como se alguém tivesse estado lá e voltado para garantir. Melhor onde, exatamente, e em comparação com o quê, é uma questão que raramente se coloca em voz alta.
Franceses, portugueses e espanhóis (e seus derivados coloniais) usam alegremente esta espécie de maldição sempre que os seus caminhos se separam. Mas nem todos os povos têm este mau feitio dos católicos. Até os italianos, católicos convictos, se aperceberam do significado do termo e criaram o «ciao», palavra ambígua que tanto serve para chegar como para partir, talvez para não se comprometerem demasiado com nenhuma das hipóteses, o que é o mesmo que dizer: «estares aqui ou estares ali, para mim é a mesma coisa».
Os ingleses têm uma maneira mais civilizada de se despedirem; preferem desejar que o outro «passe bem», mesmo longe. Se analisarmos o sentido de «goodbye», veremos que este significa algo do tipo «boa passagem», expressão que usamos com a mesma convicção com que dizemos «tem de ser», como se o universo fosse uma repartição pública. «Goodbye» encerra um desejo altruísta, com uma pitada de egocentrismo: que o outro esteja bem, mesmo quando não está perto de nós.
Os alemães são diretos. Sem floreados nem merdices desnecessárias: «auf Wiedersehen» significa «até à vista» e não tem segundos significados. Sem promessas, sem transcendência. Pessoalmente, gosto da maneira japonesa da despedida, na zona de Tóquio: «mata ai masho». Não faço ideia do que significa, mas que soa bem, soa.
Naquele sábado percebi que nenhuma palavra é suficiente para definir o sofrimento à nossa volta, entre familiares e amigos, na despedida de um amigo. Mas, antes de o padre voltar a pedir uma das poucas orações que sei, o meu repertório religioso não vai muito além disso, percebi que algumas palavras são excessivas. «Adeus» é uma delas. É solene demais para consolar e promete mais do que sabemos cumprir. Foi por isso que, com o meu pai e o meu tio, me recusei a dizer adeus: não para melhor, nem para nenhum lugar que precisasse de explicação. Há ausências que não pedem destino, apenas respeito. Eles ficam onde sempre estiveram: num tempo que já não volta e numa memória que insiste. E talvez seja esse o único lugar onde ainda faz sentido dizer o nome de alguém. O resto é o mundo a andar para a frente sem pedir licença, enquanto eles ficam nas histórias, nos silêncios, nessa sensação incómoda de que o mundo continuou, como se nada tivesse acontecido.
Agora, se me permitem, vão todos morrer longe e o mais tarde possível, de preferência. E desenganem-se se acham que esta é uma crónica de despedida.
Júlio Ferreira é um inconformado encartado
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