Manoel de Barros
Seis artistas percorrem o país, do sul do Sul ao norte do Norte, passando pelas ilhas: lugares periféricos, espaços marginais. Cada um deles trouxe, e levou, consigo suas experiências e vivências, seus contextos e processos que se comunicaram, ao longo do ano de 2025, em momentos de residência e de reflexão/criação. Criar a partir do território, ou dos territórios, procurando perceber em cada um deles o lugar que a água ocupa na lógica da região – água doce ou salgada, escassa ou abundante, corrente ou submersa. A água na suas diversas formas e funções, também nos seus vestígios, cicatrizes e rotas traçadas pelo correr de rios e pelo movimento das marés. A água cria uma geografia própria, carrega consigo muitas histórias e foi a partir das histórias dos lugares, das suas tradições, e dos seus esquecimentos, que os artistas propuseram percursos particulares, modos diversos de o apreender. Mas há algo que permeia todo o processo e que atravessa todas as criações – a matéria. Cada lugar tem uma materialidade própria e fornece, ou forneceu, materiais, sugeriu ferramentas e modos de apropriação. Da leveza das cascatas de tecido e do exercício de frottage de Milita Doré, passando pelos mapas fluviais de Bertílio Martins, pela viagem videográfica de Margarida Andrade, pelas personagens mágicas de João Amado, pela síntese de materiais da obra de Patrícia Oliveira até à materialidade evidente das múltiplas peças de Ana Maria Pintora, todas as obras, nas suas diferentes encarnações, são produto matérico de experiências no e com o território.
A segunda exposição do projeto, agora em Loulé, aprofunda as relações entre as obras e os conceitos ao promover um diálogo através da coexistência nos espaços da galeria. As obras são individuais, mas o resultado é fruto de um coletivo de descobertas, de trocas, de interações com os territórios e com as pessoas que vivem efetivamente em cada um desses territórios. Quando refletiu sobre a arte na contemporaneidade, Yves Michaux afirmou que a pergunta hoje já não é “o que é arte”, mas sim “quando é arte”. A arte acontece também na maneira como os artistas ocupam o espaço, e nos modos como refletem sobre este. Em Loulé, a água é escassa, mas os artistas foram ao íntimo da terra e percorreram caminhos ancestrais que permanecem como memória viva de águas que um dia escorreram, que por vezes ainda escorrem, mantendo o território vivo.
Milita Doré decidiu explorar a leveza do tecido e do papel. A água aparece em cascatas de tecido que escorrem pelo chão, como que penetráveis, cortinas de água sempre em movimento. A artista explorou ainda a materialidade dos espaços ao “imprimir” suas asperezas, reentrâncias e propriedades, sobretudo das fontes, dos lugares onde a água outrora habitou. A frottage permitiu à artista trazer consigo uma marca de um espaço longínquo – como a aura benjaminiana, que evoca, simultaneamente, o lugar e a memória.
Os mapas hidrográficos, de cada região experienciada, compõem as séries dos desenhos de Bertílio Martins. Dos cursos dos rios, o artista procurou registar o movimento – elementos mínimos que, mais do que fixar, insinuam, transformando a experiência do visionamento, através do dispositivo de exposição, num gesto performático do público, levado a circular à volta para absorver o todo.
Através de um tríptico, Margarida Andrade sintetiza a experiência do circuito da água – transportando-a de um lado a outro, trazendo-a até onde ela não desagua. Para Patrícia Oliveira, a exploração dos materiais, e o contraste entre eles, o vidro e a tecelagem nas suas diversas aceções, contemplam as tradições de cada lugar de residência e incorporam-se numa peça que se expande e se desfaz, e é reconstituída a cada momento de exposição. João Amado escreveu sobre a sua experiência num livro cuidadosamente cosido, uma narrativa dos lugares e das memórias de cada lugar. A narrativa está também presente nas suas personagens, naqueles que têm braços compridos para abarcar o fluxo das águas e nos que têm as pernas longas, para alcançar a água que escasseia. Na obra de Ana Maria Pintora, cujo processo foi sendo laboriosamente registado e se reflete num fluxo contínuo, as ideias – suas e de outros – entrelaçam-se e concretizam-se em peças únicas, constituídas de materiais autóctones, carregadas de lugar para lugar, como abrigos frágeis e, ao mesmo tempo, resistentes, porque permaneceram através dos tempos.
Sem abandonar os processos que os constituíram enquanto tal, cada artista absorveu elementos do espaço desconhecido, ou re-conheceu, através dos olhos dos outros, novas formas de ver e de vivenciar os seus próprios territórios. Esse foi o ponto de partida que, a cada nova exposição, se torna no lugar onde desaguam as experiências transformadas em obras de arte.
Exposição Geografias da Água, de 23 de janeiro a 14 de março
Galeria do Espírito Santo, Loulé
Curadoria: João Serrão e Mirian Tavares
Galeria do Espírito Santo, Loulé
Curadoria: João Serrão e Mirian Tavares
Mirian Tavares é professora
Crónica publicada em:
Foto: Isa Mestre
