Já deixo claro, para que não haja equívocos nem pedidos de esclarecimento no final: se a Idade Média regressar e há dias em que parece que vem a caminho num Carro da Justiça (carroça ou carro de bois que transportava os condenados e por extensão o aparato inquisitorial até ao local do auto-de-fé), eu estarei do lado das bruxas. Não por vocação esotérica, mas por simples instinto de sobrevivência democrática.

Quem se diz cheio de fé, mas vazio de humanidade, está só a usar Deus como álibi. E quando Deus vira álibi, a religião deixa de ser caminho espiritual e passa a ser instrumento de exclusão. O problema não é Deus. O problema é quando Deus vira argumento final numa discussão. A partir daí já não há diálogo, só há condenação.

Houve um tempo em que bastava saber ler, pensar alto ou ter um comportamento ligeiramente estranho para acabar amarrado a uma estaca. Chamava-se fé, chamava-se ordem, chamava-se “é para o teu bem”. A fogueira tratava do resto. Hoje o método mudou, mas a pulsão mantém-se. A Inquisição não desapareceu: evoluiu, fez rebranding. Os novos inquisidores não usam Hábito inquisitorial, Hábito do Santo Ofício ou archotes, usam fatos bem passados, largaram o capuz, tiraram uma licenciatura ou mestrado, fizeram um curso intensivo de marketing digital e aprenderam a falar em “valores”. Antes queimavam pessoas em praça pública; agora queimam pessoas e ideias nos órgãos de comunicação social e nas redes sociais, com ofensas morais e muitos pontos de exclamação. O fogo continua lá.

Nem todas as ideias envelhecem mal. Algumas, como o pensamento medieval, tiveram uma reabilitação notável. Naquele tempo havia uma verdade única, oficial e abençoada. Questionar era coisa do diabo e pensar demasiado causava problemas à alma. Hoje também há uma verdade única só que vem embrulhada em palavras como “identidade”, “povo de bem” e “tradição”. Quem duvida já não é herege: é “woke”, “traidor” ou “vendido”. O princípio é o mesmo. Repetir slogans dá menos trabalho e não exige leitura. Pensar cansa!

Como qualquer estrutura de poder respeitável, a Inquisição precisava de inimigos para justificar a sua utilidade. Arranjou judeus, bruxas, mouros e qualquer um que tivesse livros a mais em casa. A extrema-direita segue fielmente a cartilha: imigrantes, artistas, professores, jornalistas, pessoas com cabelo estranho ou, pior ainda, opiniões completas. O inimigo é sempre interno, sempre sorrateiro e, curiosamente, nunca está presente para se defender. Existe sobretudo em discursos inflamados e posts alarmistas partilhados por um primo distante.

O medo continua a ser um gestor de massas irrepreensível. Antigamente, havia a fogueira: um espetáculo pedagógico onde se aprendia que pensar fora da linha podia doer — e doía mesmo. Hoje, o medo veste a forma de “alerta”, “urgente” e “o país está a ser destruído”. Ninguém sabe bem por quem, nem como, nem quando, mas o pânico instala-se com garantia. E com medo, ninguém pergunta: todos clamam por um salvador. Ele, astuto e inteligente, conhecedor do que funciona no resto da Europa, surge, é aplaudido e, num instante, santificado.

A Inquisição vigiava camas, corpos e desejos como se fosse porteira do inferno. A nova versão faz o mesmo, mas chama a isso “valores cristãos”. O curioso é que Jesus nunca pareceu muito interessado em controlar ninguém, só em impedir que uns se achassem mais puros do que os outros.

A violência, claro, nunca é violência. Antes era “salvar almas”; agora é “defender a pátria”. Excluir, silenciar, reprimir ou bater vem sempre com um selo de necessidade histórica. Nunca é crueldade, é missão. Nunca é ódio, é amor. Um amor tão intenso que só funciona à base de gritaria, insultos e, quando necessário, murros pedagógicos.

E como em qualquer boa tradição inquisitorial, nada disto funciona sem uma mãozinha do poder. Ontem eram reis e impérios; hoje são interesses económicos, audiências e políticos de voz grossa. O discurso é popular, mas o benefício é sempre para os mesmos. O povo serve para bater palmas, nunca para decidir e quando perceber isso, provavelmente já será tarde demais. No fundo, o inquisidor moderno já não cheira a fumo, mas continua a cheirar a mofo. Não grita “herege”, grita “vergonha”. Troca o latim por slogans, a cruz pela bandeira, mas permanece igual: morre de medo da dúvida, da diferença e de tudo o que não cabe num manual simples.

Se a Idade Média voltar, estarei do lado das bruxas. Pelo menos elas sabiam que estavam a ser perseguidas. O mais perigoso do nosso tempo é fingirmos que não estamos.

Júlio Ferreira é um inconformado encartado

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