Naquele tempo, as manhãs eram frias; as ervas cobriam-se de orvalho; as mãos enregeladas apertavam o casaco, numa tentativa de proteger o pescoço.

O percurso de cerca de três quilómetros era feito diariamente a pé; evitava as poças. Os pés descalços agradeciam. Às vezes ficavam arroxeados. Queria chegar cedo para ainda ter tempo de os esfregar. Na sala não era permitido. Mas acelerar não era fácil quando o jantar tinha sido fraco e o pequeno-almoço inexistente. Por vezes, desmaiava pelo caminho. Acordava aflito: os atrasos não eram tolerados.

Do alto do seu púlpito, por detrás da secretária, a Dona Arminda. Acabada de sair do magistério. Um ar altivo, a brancura própria de quem nunca precisou de trabalhar ao sol. Cabelo curto, rígido. Rosto afilado, raposino. Olhos azuis, miudinhos. Lábios carmim a formar um pequeno círculo, tensos como os dois acentuados vincos entre as sobrancelhas. Blusa abotoada até cima. Casaco fino de malha a cobrir os ombros. Cores neutras. Recato e rigor.

Em pé, em fila, os meninos formavam uma procissão em direção àquela imagem sagrada no altar. À vez, iam recebendo os elogios ou as reguadas, consoante o estado dos trabalhos de casa. Alguns eram brindados com uns tabefes, para ver se aprendiam. Mas o Vítor tinha sempre um extra.

— Era burro — dizia a Dona Arminda, com a voz melosa, esmagando-lhe a cabeça contra o quadro, para ver se lá entrava alguma coisa.

Os colegas encolhiam-se nas carteiras. Olhares de pena e de medo. Outros tentavam confortá-lo:

— Já passou, pá. Tu aguentas.

O Vítor, cabisbaixo, assentia e limpava o sangue do nariz ao punho manchado da camisa.

Naquele domingo, não houve o tão esperado pedaço de carne no prato das crianças. As colheres afundaram-se no feijão com massa. Mais feijão. Mais massa. O repolho de todos os dias. Diante do olhar triste e inquisitivo, a mãe pediu-lhes paciência. Levaria a galinha e meia dúzia de ovos à professora, na esperança de que fosse mais branda com o Vitinho.

A Dona Arminda desfez-se nas habituais mesuras: não era preciso, dizia; não se sentia bem em receber presentes dos pais.

Duas semanas: foi o tempo que uma galinha e meia-dúzia de ovos conseguiram comprar. O Vítor definhava. Não aguentou. Aos oito anos, trocou a escola pelo trabalho agrícola, os livros pela enxada, os hematomas na cabeça pelos calos nas mãos. Fez-se menino-homem.

A vida continuou miserável, mesmo com mais um par de braços na horta. O pai foi a salto para França; depois a mãe e, por fim, os filhos. Anos depois, com os filhos criados, regressaram a um Portugal diferente, com estradas novas, montras cheias e televisões a cores.

Numa manhã de outono, Vítor acompanhou a filha à escola. Entusiasmada, faladora, a menina saltitava, puxando-o em direção ao portão da escola.

— Pai, esta é a professora Maria.

A mulher inclinou-se ligeiramente, ao nível da criança.

— Meu anjo — disse, ajeitando-lhe a camisola de caxemira.

O Vítor ficou imóvel.

— Dona Arminda?

— Está enganado — respondeu a professora com uma expressão severa— Chamo-me Maria.

Ele corou. Com a garganta apertada, titubeou.

— Peço desculpa. Fiz confusão.

A professora desviou rapidamente a atenção e chamou outra aluna pelo nome.

O Vítor deu uns passos. Depois parou. Olhou para trás e sentiu o calor e o cheiro a ferro invadir-lhe as narinas.

No dia seguinte, à hora da saída, instalou-se um alvoroço pouco habitual na entrada da escola. Crianças e adultos cochichavam, riam, apontavam.

Junto ao portão, uma gaiola enorme. Dentro, galinhas inquietas, penas eriçadas, cacarejos.

A funcionária da escola, ainda a recuperar o fôlego, explicou à professora Maria:

— Um senhor veio cá deixar esta encomenda para si.

A professora aproximou-se devagar. Olhou para gaiola. Não perguntou nada.

Limitou-se a agradecer.

Com a voz baixa.

Muito correta.

Sílvia Quinteiro é professora

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