(Galeria Trem-Manuel Baptista. De 05 de Fevereiro a 26 de Abril)
(...) E era como se a água
Desejasse
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.
Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra (...).
Hilda Hilst
A artista, há tempos, pediu-me para levar para o seu barco terra e sementes. Terra de um lugar que significasse muito para mim. E sementes — porque o seu trabalho trata mesmo disso — de semear ideias, de plantar num solo comum o que, não sendo incomum, é convertido, pelos artistas, numa linguagem específica, através de um idioleto que os torna particulares. Susana de Medeiros consegue (im)plantar em nós a materialidade do visível, de um visível que nem sempre é olhado, porque está sob nós — um chão que nos sustenta e de onde vem quase tudo o que nos faz humanos. A terra que é nossa mater, no sentido em que dela é retirada a matéria-prima que nos constitui.
As questões do chão comum envolvem mais do que nós, humanos. Envolvem todos os seres, todas as categorias de seres, todos os que habitam connosco este mesmo chão. A artista ressalta a nossa relação com os outros, que não são apenas os semelhantes que não (re)conhecemos, mas também os outros que habitam o espaço à nossa volta e que, durante séculos, vimos como inferiores a nós, menos importantes do que nós na lógica do progresso e da nossa mundividência.
Donna Haraway fala-nos das ligações tentaculares que nos unem a outras espécies. E a obra da artista revela-nos, de forma delicada, esses tentáculos — raízes que brotam de matérias trabalhadas. A matéria crua que se contrapõe à outra, transformada pela mão humana, criando uma ligação orgânica e evidenciando o discurso da artista através da sua arte, que é a sua fala, o seu idioma próprio.
Um barco que carrega, dentro de si, sementes é a obra central da exposição. Deveria levar as sementes, e a areia, que eu fiquei de lhe entregar. A minha terra está muito longe; talvez de barco pudesse ir recolher a areia quente da praia que não está aqui. O meu texto é a semente que lhe ofereço, como algo que pode ser espalhado e que pode florescer. A obra de Susana de Medeiros fala por si. E eu apenas deixo a minha pequena oferta neste texto que é, na verdade, um preâmbulo para as reflexões da artista sobre o seu processo. E ninguém melhor do que ela mesma para falar daquilo que nos traz, daquilo que fez, daquilo que pensa com o que cria, daquilo que a constitui.
Mirian Tavares é professora
Crónica publicada em:
Foto: Isa Mestre
