Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada (…)
Manuel Bandeira
Pasárgada é uma utopia – a terra desejada, ideal. Como na Canção do Exílio, de Gonçalves Dias – “Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá”. Ou como o rio da aldeia de Fernando Pessoa: “O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia”. A ideia do lugar e o ideal de voltar a esse lugar são temas recorrentes na poesia, nas canções, nas artes, de um modo geral. Mas a terra que me viu nascer já não é a mesma, porque o tempo agiu sobre ela e também agiu sobre mim. A terra que me viu nascer não é a mesma porque eu também mudei. E o que guardamos é a memória daquele lugar e daquele instante – da infância que trazemos dentro de nós, real ou imaginada.
Porque a infância parece ser o lugar feliz de muita gente. Talvez porque esteja longe, porque pode ser modificada e recontada na memória, porque nos pertence e fazemos do passado aquilo que quisermos; cada um reinventa a própria história. Durante anos fui nómada. Vivi em muitos lugares até que me fixei em Faro, Portugal. Há tempo demais, talvez. Houve um tempo em que a minha terra era onde eu estava. Sempre me senti desenraizada – era de lugar nenhum e de todos os lugares. A minha «terra» tinha palmeiras, mas eu já não me via à beira-mar. Hoje penso, a cada dia mais e com mais força, que quero voltar – mesmo sabendo que aquela terra não é mais a mesma que me viu crescer, que a infância se perdeu (e ainda bem), que sou outra e que continuo desenraizada. Quero voltar porque, de repente, a terra tomou conta de mim: suas cores e canções, sua rede na varanda, seus cheiros e comidas. A família, que está lá há muito tempo, longe demais. Porque o rio da minha aldeia será sempre mais bonito que o Tejo, mesmo sabendo que minha aldeia é uma cidade imensa e que não há nenhum rio memorável. Vou-me embora para Pasárgada; aqui (já) não sou (tão) feliz.
Mirian Tavares é professora
Crónica publicada em:
Foto: Isa Mestre
