
Quando o meu filho mais velho andava na escola primária, a professora pediu-me, certa tarde, no final das aulas, que ficasse um pouco para conversarmos. Pediu também ao menino que se sentasse connosco.
À nossa frente, sobre a secretária, uma pasta de cartolina com o trabalho da última semana. De lá de dentro, a professora foi retirando, uma a uma, as evidências da grande evolução do pequeno: o português, a matemática, o estudo do meio. Tudo irrepreensível.
Mas quando chegou ao desenho… ai, o desenho — uma tragédia.
Apressei-me a explicar que, na verdade, estranho seria o contrário, uma vez que o rapaz não tinha a quem sair com o mínimo talento para as artes. Mas ela não se deu por convencida. Sublinhou a falta de empenho e, a título de exemplo, mostrou-me uma página para colorir.
— Está a ver? — disse, apontando para o papel. — Era só pintar. E olhe o que ele fez. As ovelhas não são cor-de-rosa — acrescentou, olhando-o nos olhos.
Sem que eu tivesse tempo para lhe perguntar o que quer que fosse, o artista saiu em defesa da sua obra:
— As minhas são.
Fez-se um breve silêncio.
— E porquê? — perguntou a professora.
— Porque eu gosto.
Ficámos ambas sem argumentos. Como é que se diz a uma criança de seis anos que as ovelhas dela não podem ser cor-de-rosa?
Anos mais tarde, o telefone tocou. Ocupada, não consegui atender de imediato. Do outro lado da linha, alguém que, claramente, não tencionava desistir.
— Mãe, atende! Eu não posso. Estou a voar — gritou o meu filho mais novo.
Deitado sobre o encosto do sofá da sala, barriga para baixo, braços abertos, pernas dobradas, olhos postos no horizonte possível e uma pose que desafiava a gravidade. Nunca lhe vi asas, mas, ainda assim, percebi de imediato que aquele voo não era uma metáfora. Muito menos, uma mentira. Era a sua ovelha cor-de-rosa.
Recordo hoje estes dois episódios, a propósito de um outro que, à primeira vista, nada tem a ver. Mas só à primeira vista.
No decorrer de uma conversa com um amigo, apercebi-me de ele que usava repetidamente a expressão em Gambelas. Chamei a atenção — como faço sempre que tenho oportunidade — para o facto de a formulação correta ser nas Gambelas.
Não consigo situar exatamente o momento em que se começou a achar natural subtrair o artigo à localidade. Quem ali tem as suas raízes, jamais o faria. Acredito, por isso, que o fenómeno esteja relacionado com o surgimento das urbanizações mais recentes e, sobretudo, com a legitimação que lhe confere o letreiro à entrada da universidade: Campus de Gambelas.
Se ali está, quem chega assume estar certo. Mas não está. Não está mesmo.
Alguns ficam surpreendidos com a informação, outros franzem a testa, desconfiados. O que nunca me tinha acontecido antes foi ouvir, como resposta:
— Está bem. Mas eu digo assim.
Há mesmo uma primeira vez para tudo. E, confesso que, pensando melhor, até achei muito bem. Afinal de contas, «gringos» e locais sempre se moveram sobre as mesmas coordenadas, mas em lugares diferentes. E acresce que toda a gente devia ter o direito à sua ovelha cor-de-rosa. Uma criança de seis anos, um adulto de sessenta… somos todos filhos de Deus.
Aproveito esta libertação, esta ideia reconfortante de que cada um poder viver no seu próprio mundo e, inspirada, saio do Faro, passo pelo Almancil e vou até à Quarteira. Sento-me em praia e, adivinhem, emerge das ondas um cardume de ovelhas aladas — cor-de-rosa, claro está!
À nossa frente, sobre a secretária, uma pasta de cartolina com o trabalho da última semana. De lá de dentro, a professora foi retirando, uma a uma, as evidências da grande evolução do pequeno: o português, a matemática, o estudo do meio. Tudo irrepreensível.
Mas quando chegou ao desenho… ai, o desenho — uma tragédia.
Apressei-me a explicar que, na verdade, estranho seria o contrário, uma vez que o rapaz não tinha a quem sair com o mínimo talento para as artes. Mas ela não se deu por convencida. Sublinhou a falta de empenho e, a título de exemplo, mostrou-me uma página para colorir.
— Está a ver? — disse, apontando para o papel. — Era só pintar. E olhe o que ele fez. As ovelhas não são cor-de-rosa — acrescentou, olhando-o nos olhos.
Sem que eu tivesse tempo para lhe perguntar o que quer que fosse, o artista saiu em defesa da sua obra:
— As minhas são.
Fez-se um breve silêncio.
— E porquê? — perguntou a professora.
— Porque eu gosto.
Ficámos ambas sem argumentos. Como é que se diz a uma criança de seis anos que as ovelhas dela não podem ser cor-de-rosa?
Anos mais tarde, o telefone tocou. Ocupada, não consegui atender de imediato. Do outro lado da linha, alguém que, claramente, não tencionava desistir.
— Mãe, atende! Eu não posso. Estou a voar — gritou o meu filho mais novo.
Deitado sobre o encosto do sofá da sala, barriga para baixo, braços abertos, pernas dobradas, olhos postos no horizonte possível e uma pose que desafiava a gravidade. Nunca lhe vi asas, mas, ainda assim, percebi de imediato que aquele voo não era uma metáfora. Muito menos, uma mentira. Era a sua ovelha cor-de-rosa.
Recordo hoje estes dois episódios, a propósito de um outro que, à primeira vista, nada tem a ver. Mas só à primeira vista.
No decorrer de uma conversa com um amigo, apercebi-me de ele que usava repetidamente a expressão em Gambelas. Chamei a atenção — como faço sempre que tenho oportunidade — para o facto de a formulação correta ser nas Gambelas.
Não consigo situar exatamente o momento em que se começou a achar natural subtrair o artigo à localidade. Quem ali tem as suas raízes, jamais o faria. Acredito, por isso, que o fenómeno esteja relacionado com o surgimento das urbanizações mais recentes e, sobretudo, com a legitimação que lhe confere o letreiro à entrada da universidade: Campus de Gambelas.
Se ali está, quem chega assume estar certo. Mas não está. Não está mesmo.
Alguns ficam surpreendidos com a informação, outros franzem a testa, desconfiados. O que nunca me tinha acontecido antes foi ouvir, como resposta:
— Está bem. Mas eu digo assim.
Há mesmo uma primeira vez para tudo. E, confesso que, pensando melhor, até achei muito bem. Afinal de contas, «gringos» e locais sempre se moveram sobre as mesmas coordenadas, mas em lugares diferentes. E acresce que toda a gente devia ter o direito à sua ovelha cor-de-rosa. Uma criança de seis anos, um adulto de sessenta… somos todos filhos de Deus.
Aproveito esta libertação, esta ideia reconfortante de que cada um poder viver no seu próprio mundo e, inspirada, saio do Faro, passo pelo Almancil e vou até à Quarteira. Sento-me em praia e, adivinhem, emerge das ondas um cardume de ovelhas aladas — cor-de-rosa, claro está!
Sílvia Quinteiro é professora
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