“O tempo — ainda bem! — é o carrasco da nulidade”, escreveu José Dias Sancho.

Esperemos que sim, acrescento eu.

Lembrei-me desta frase numa daquelas situações em que a civilidade nos impede de nos levantarmos, apesar de o instinto aconselhar que fujamos a sete pés. Uma palestra longa e inflamada, sustentada por palavras seguras, ditas do alto da convicção de quem acredita não precisar provar nada do que afirma.

Discurso redondo. Da boca do orador — gárgula sinistra— jorra uma corrente contínua de frases, recolhidas e despejadas como as águas pluviais na beira de um telhado.

Sempre de boca aberta. Alheio ao aviso da sabedoria popular — irrelevante para um intelectual deste gabarito — segundo o qual, nestes casos, ou entra mosca ou sai asneira. Básico, mas certeiro.

Após longos minutos de preâmbulo, o orador anuncia finalmente o objeto da sua vasta investigação. Um trabalho exaustivo, rigorosíssimo, uma lista de fontes inesgotável… haveria tanto a dizer. Uma lástima, o tempo ser curto. Discorre, por isso, sobre outros temas. Divaga. Cola umas coisas aqui. Cose outras acolá. De vez em quando, lembra-se do tema e, de raspão, lá o menciona. Uma investigação profundíssima. Chegou a tantas conclusões. Se ao menos tivesse tempo… As descobertas foram muito interessantes, assevera.

Interessantes! Ao ouvir a palavra, acionam-se em mim todos os sinais de alerta — disparam os alarmes interiores, ouço sirenes, avisto luzes de emergência a entrar pela sala a dentro — e procuro, sem sucesso, uma saída de emergência. Interessante, a palavra que tem como única virtude não querer dizer rigorosamente nada. Muito útil quando não sabemos do que falamos ou quando não temos nada para dizer. A obra era, portanto, interessante. Nem uma referência concreta, um exemplo, uma breve citação, nada. Exalte-se, porém, a virtude de um orador que discorre horas sobre o desconhecido e arranca da audiência a confirmação do seu juízo: Interessante! Interessante!

Uma preleção brilhante, considerando que o tempo era curto e a investigação extensa. Milagres não se fazem. Uma pena, porque também teria sido interessante.

Costumo dizer destas situações que prefiro uma dor de dentes. E, nem de propósito, dei por mim hoje no dentista. Quase uma hora de espera, passada a observar um pai que ensinava o filho a construir um castelo de cartas. O menino tentava, as cartas caíam, mas ele insistia. O pai explicava pacientemente o porquê do desequilíbrio e mostrava como distribuir o peso. A certa altura, olhou para mim e disse, meio a rir, meio a sério:

— O filho de um engenheiro tem de saber o que está a fazer.

Entre observar aquela criança a construir o castelo de cartas e ouvir o sofrível investigador, não hesito na escolha.

Entre um castelo sustentado e outro construído sobre o vazio, não tenho dúvidas sobre qual ruirá primeiro.

Mais tarde ou mais cedo, o tempo será, inevitavelmente, o carrasco da nulidade.

Sílvia Quinteiro é professora

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