Associo a conhecida expressão do filósofo espanhol a estas semanas que temos testemunhado. A grandeza das populações e de cada um, no seu contexto de tempo e lugar, capazes de moldar o mundo num repente, ao mesmo tempo que reage às agruras que se lhe deparam.
Que difícil a vida em que os agregados familiares ficam expostos, dias e noites, a fio. A sua capacidade de resiliência, adaptação e resposta às necessidades básicas de sobrevivência com tudo a desmoronar-se à sua volta, à espera de quem possa acudir, percebendo que é toda a comunidade envolvente e outras próximas na maior dificuldade e perigo.
A situações enormes sucedem-se atos maiores, na solidariedade coletiva nacional, na superação individual, para mais não se perspetivando prazo curto de normalização para as necessidades básicas.
Nem consigo imaginar como está quem assim tanto sofre.
Tenho eletricidade, portanto, consigo perceber e acompanhar as previsões climáticas, as expetativas de respostas, as reações das autoridades mais para os que estão de sofá do que para quem sobrevive esperando sem saber o fim destas dificuldades em que o céu decidiu desabar-lhes e na vizinhança. Fico aflito.
Desejo o melhor, mas antecipo o pior durante muito mais tempo. Por isso, conhecendo a importância e a influência da comunicação, percebo bem a insistência do Presidente da República eleito em manter a exigência na resposta, sem desvanecer na teimosia de manter o tema e o foco no dia-a-dia da governação.
Está a resultar, todos os demais atores estão, agora, a assumir o momento (mesmo com gaffes).
É incrível que mesmo neste momento longo, as pessoas se tenham mobilizado para votar. É algo imensamente generoso.
No meio do medo e desesperança, cada um desviou-se do seu percurso habitual e meteu-se a escolher outro concidadão para vir a garantir a normalidade democrática do país no prazo necessário ao términus do mandato do atual em funções.
Cada um vai buscar forças e discernimento para assumir corresponder às necessidades básicas, mesmo compreendendo nessas o regular funcionamento das instituições.
Que exemplo de cada um e de coragem com a dos autarcas que, além de estarem presentes nesta hecatombe que vamos assistindo pelos órgãos de comunicação social, ainda garantiram a mobilização organizativa para assembleias de voto e toda a logística legal imperativa com normalidade num quadro de total anormalidade e sufoco informativo sobre o que mais viria nas próximas horas.
Um espanto que não se acaba.
E a resposta eleitoral que, ainda assim, fez mover o país? Incrível e sem margem para dúvidas. Escolheram quem, sem gritaria ou demagogia, mais serenamente quiseram fazer destacar para representar a República. Normal seria se a opção fosse mais a outra associada ao aproveitamento do desespero e da ansiedade.
Foi a de um país maduro na democracia da escolha e no carácter de «Um de nós» para as exigências das dificuldades com que vamos todos conviver.
Ortega y Gasset não estaria a pensar nesta conjugação de fenómenos no tempo e lugar, mas ficaria também impressionado sobre as capacidades de cada um no contexto louco que estamos a viver em que só temos escolha sobre uma das situações e, ainda assim não a desperdiçamos, mesmo que aparentemente tenha menor influência sobre as necessidades básicas imediatas.
Esta opção assumida, um (pequeno) desvio à atenção do mais premente do básico pela interrupção na urgência coletiva, é algo de característico que nos marca como povo. A cooperação, a ajuda, o foco nos outros é português.
No passado já demos provas desta caraterística de generosidade coletiva. Mantemo-nos como somos.
Espero que o poder político, as autoridades públicas, não se confortem apenas das vontades e ofertas generosas de cada um e cumpra o dever de não fazer desmerecer tamanhas virtudes, para não fazer derrocar estas também além do que a natureza nos vai colocando pela frente à prova.
Que o tempo seja, mais cedo, o da esperança. Viva Portugal(!) é o que apetece gritar.
Paulo Neves é um «ilhéu», mas nenhum homem é uma ilha
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