Cantigas de Santa Maria, de Alfonso X (el Sabio), anos 1221 a 1284 (em galaico-português):

“Desto direi un miragre que fezo en Faaron
a Virgen Santa Maria en tempo d'Aben Mafon,
que o reino do AIgarve tii ' aquela sazon
a guisa d ' om ' esforçado, quer en guerra, quer en paz.
En aquel castel avia omagem, com' apres ' ei
da Virgen mui groriosa, feita como vos direi
de pedra bem fegurada e, com ‘eu de cert’ achei,
na riba do mar estava escontra ele de faz.
Ben do tempo dos crischãos a sabian y estar,
e posende os cativos a yan sempre a orar,
e Santa Mari 'a vila de Faaron nomear
por aquesta razon foron. Mas o poboo malvaz
dos mouros que y avia ouveran gran pesar en
e no mar a deitaron sannudos con grande desden;
mas gran miragre sob' esto mostrou a Virgen que ten
o mundo' en seu mandamento, a que soberba despraz.
Ca fez que niun pescado nunca poderon prender
enquant ' aquela omagem no mar leixaron jacer.
Os mouros, pois viran esto, fóróna dali erger
e posérona no muro ontr'as ameas en az.
Des i tan muito pescado ouveron des enton y,
que nunca tant y ouveran, per com' a mouros oy
dizer e aos crischãos que o contaran a mi;
poren loemos a Virgen en que tanto de ben jaz.”

Fontes: (Jaime Ferreiro Alemparte, «A Cidade Moçárabe de Santa Maria de Faro e o Milagre da Cantiga CLXXXlll em Fontes anteriores ao Rei Sábio». in Anais do Município de Faro, vol. VII, 1977, pp. 63 e 64).

In LAMEIRA, Francisco Faro – A arte na história da cidade, Câmara Municipal de Faro, 1999, p.23.

«Como uma imagem de Santa Maria estava em Faroon, na riba do mar. Ilustração das cantigas de Alfonso X. Estampa do sec. XIII, Mosteiro do Escorial, Madrid». http://faro-com-historia-saber-mais.blogspot.com/2010/11/cantiga-de-santa-maria-de-afonso-x-o.html


2026… estamos na semana da BTL e sinto que nos falta ainda mais algo, a Faro, para atrair o turismo cultural (e religioso), para surpreender os nossos vizinhos de Espanha e, afinal, para honrar a nossa história. Para integrar produto e enriquecer a nossa oferta, a nova procura pelo destino…


Como é que Alfonso X já nos “havia descoberto”, cantado e louvado e ainda há tanto que ainda falta, nós próprios, “descobrirmos” e dar a conhecer.

A nossa ligação fronteira à ria, os nossos ancestrais pescadores, os cristãos já havidos em Faro antes da ocupação muçulmana (vide o nosso templo visigótico, depois romano e o Bispo Vicente, do Séc. III, o templo cristão primaz de Portugal), o arco do repouso e a sua ermida evocativa da aparição a Afonso III; a Nossa Senhora (da Conceição, padroeira de Portugal) que encima a heráldica e o nosso brasão (antes com o Menino ao colo), entre duas torres de Faro com as ondas a seus pés; a Igreja-Catedral de Santa Maria… A ermida da Nossa Senhora da Saúde; a pedra/olheiro a Nossa Senhora que estava no passeio da doca (louvando as águas santas para a cura das doenças dos olhos, que parece também representada na estrela no brasão, antes ondulada, agora em 8 pontas de ouro); O Convento da Na Sra. da Assunção (uma história fantástica que liga as mulheres de Faro e as Rainhas de Portugal); a Nossa Senhora dos Negros (Igreja Matriz de São Pedro) ou a Senhora do Carmo… Cada com uma história local e muito mais além no Algarve.

Enfim, contributos para um roteiro mariano em Faro.

Quanto tempo mais para voltarmos a consagrar, e (re)colocar num nicho, no pano da muralha, fronteira à Ria Formosa, a imagem da Nossa Senhora, com esta legenda da cantiga de Alfonso X (texto e música), para Faro ser propalada, visitada, respeitada pela história e cultura milenar?

Não compreendo como continuamos a perder oportunidades e ensinarmos às novas gerações o nosso património comum, para mais quando já é reconhecido, de há tanto tempo, pelos Reis de outras nações (verdade que Alfonso X, disputava com Afonso III, a titularidade sobre Faro depois do Califa de Niebla, Aben Mafon, lhe ter prestado vassalagem, antes da tomada da cidade em 27 de março de 1249).

Porque não juntar a Diocese e a Universidade, com o Município e a RTA, para tão importante (minha opinião) trabalho, concertando e respeitando, melhor interpretando, para divulgar a nossa história?

Paulo Neves é um «ilhéu», mas nenhum homem é uma ilha

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