Realizadas as Eleições Presidenciais, é chegado o tempo da análise política. Toda e qualquer análise tem sempre por base o ponto de vista de quem a faz, ou seja, as ideias, conceitos e pré-conceitos, a conjuntura e o posicionamento político ou ideológico.
Seguindo este ponto de vista, a única surpresa destas Eleições Presidenciais foi o resultado do candidato António José Seguro na primeira volta eleitoral. O resultado do candidato «imposto» e promovido pela comunicação social ficou em linha com o que tem acontecido com outros candidatos «independentes» em eleições anteriores. O candidato Luís Marques Mendes não conseguiu mobilizar as bases do PSD e aconteceu o habitual: «sempre que a liderança do Partido escolhe candidatos que não correspondem às exigências das bases, perde o país». Cotrim Figueiredo soube cativar o eleitorado do PSD, dividindo-o e colhendo os frutos dessa divisão. Finalmente, o resultado de André Ventura ficou em linha com o que têm sido os resultados do Chega em eleições em que ficou como cabeça-de-cartaz.
Deste modo, o que mais surpreendeu nestas eleições não foram os resultados em si, mas a reação aos resultados. Era evidente que André Ventura perderia na segunda volta fosse qual fosse o seu opositor. Nessa medida, as reações à vitória de António José Seguro seriam idênticas às que existiriam se tivessem passado à segunda volta Luís Marques Mendes, Cotrim Figueiredo, ou Gouveia e Melo. Uma espécie de «Festa da Democracia» face ao crescimento de uma «Extrema-Direita» populista e radicalizada.
Ainda que não me reveja na postura e no discurso de André Ventura e do Chega, entendo que essa conotação é exagerada. No meu ponto de vista, mais do que tudo, o Chega é uma união de forças de protesto, que absorveu desde eleitores que votavam na extrema esquerda, como o eleitorado de extrema direita que não se sentia representado e por isso não votava. A soma de ideologias divergentes num mesmo Partido, pode criar um partido populista e desprovido de ideologia própria, mas nunca um partido de extrema-direita.
Certo é que essa imagem extremista é aquela que tem imperado no meio político e social mais amplo, pelo que, na análise aos resultados, não podemos ignorar essa visão global. Os resultados da segunda volta das Presidenciais, vistas sob esse prisma, são alarmantes a nível nacional, mas, principalmente, no Algarve.
Vejamos:
- Num confronto direto entre André Ventura e um candidato que reuniu o apoio de todos os restantes partidos; com o apelo ao voto de todos os «democratas» contra os «extremistas», a nível regional André Ventura obteve 43,11 por cento dos votos.
- Apesar de António José Seguro ter vencido em todos os concelhos, obteve as diferenças de 2.586 votos em Portimão, 243 votos em Lagoa, 381 votos em Albufeira, 2.840 votos em Loulé, 1.331 votos em Tavira, 809 votos em Vila Real de Santo António.
Estes resultados não diminuem a vitória de António José Seguro, mas levantam questões políticas para o futuro.
O Chega conseguiu consolidar, em menos de uma década, uma percentagem eleitoral, que o PS e o PSD demoram 50 anos a conseguir. Mesmo que esta tenha sida a votação máxima do Chega (o que não creio), a nível nacional, com a divisão de votos entre os partidos tradicionais, é cada vez mais provável uma vitória do Chega nas Legislativas e a obtenção de uma maioria absoluta eleitoral no Algarve, que se traduzirá na eleição de mais deputados do Chega do que do PS e do PSD.
Só uma boa governação pode combater o crescimento populista.
A união de todos contra um, a que se assistiu nestas Presidenciais e poderá vir a ocorrer num cenário de governação pós-Legislativas, poderá originar a criação em Portugal de uma espécie de movimento «Le Pen», uma sombra permanente contra o regime político, atraindo cada vez mais radicais para as fileiras do Partido e inflamando cada vez mais o discurso.
O novo Presidente da República terá um grande desafio pela frente: a dignificação da Política, que contribua para o apaziguamento do populismo. A descentralização terá aqui um papel fulcral, pelo conhecimento da realidade de cada região.
Importa recordar que, em política, o mais difícil é um eleitor votar pela primeira vez num determinado partido. Nestas eleições 1.739.745 eleitores viram em André Ventura uma alternativa, muitos deles, seguramente, pela primeira vez.
Nuno Campos Inácio é editor e escritor
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