Na edição de 20 de Fevereiro de 2021 deste «Algarve Informativo» foi publicado um texto que relata os estragos provocados pelo Ciclone de 15 de Fevereiro de 1941, nas diversas localidades algarvias que ora recordamos e convidamos à (re)leitura.
Sem pretendermos desvalorizar, de modo algum, os prejuízos provocados pelas depressões dos últimos dias, sabemos que nenhuma delas se aproxima, sequer, do «Monstro» (como foi apelidado o Ciclone de 1941), que varreu o país de Sagres a Bragança. Matou mais de uma centena de pessoas, arrancou mais de 200 mil árvores só no concelho de Abrantes, provocou uma chuva de peixes na serra algarvia, destruiu casas, levou telhados, afundou navios e provocou inundações em locais nunca antes atingidos pela água.
Não pretendemos, com esta crónica, fazer comparações, mas antes analisar e questionar.
Sabemos que, independentemente do impacto humano sobre o clima, ciclicamente ocorrem eventos extremos e catastróficos, sejam originados pela chuva, pela seca, pelo vento, pelo fogo, ou pelos movimentos tectónicos. Já no século XVIII, quando as fontes escritas se multiplicam, encontramos relatos da Fortaleza da Praia da Rocha a ser evacuada, por estar a ser inundada pelas ondas que galgavam a fortaleza; de uma barragem na Vila do Bispo que rebentou pela pressão das chuvas, depois de uma década de seca profunda; ou dos vários terramotos e maremotos que arrasaram a costa do país.
A questão que se coloca pode ser resumida deste modo: «Como pode um país que está sempre a fazer simulacros e testes de stress, que invariavelmente correm bem, estar tão impreparado para responder quando as catástrofes ocorrem?»
Apesar da força destrutiva do Terramoto de 1941, podemos dizer que a sociedade respondeu com normalidade. Em mais de 90 por cento do país não existia luz elétrica, água canalisada, saneamento básico, telefone, estradas pavimentadas, eletrodomésticos e muito menos invenções recentes como televisão, internet ou comunicações. Esses recursos, hoje imprescindíveis, não faziam parte da vida quotidiana da sociedade portuguesa.
Felizmente a sociedade evoluiu e hoje temos esses confortos, mas, a existência desses confortos obriga a um maior investimento na prevenção. As casas e os bens pessoais das famílias são extremamente importantes e indispensáveis, mas, no presente, só fazem sentido conjugadas com outros recursos básicos, como sejam a eletricidade, a água, o saneamento, o gás e as comunicações.
É impensável exigir-se às sociedade e às famílias que, corrido o primeiro quarto do século XXI, se torne expectável que as pessoas tinham de passar a viver ao longo de dias, ou de semanas, privados de serviços que aos dias de hoje são vistos como indispensáveis à vida humana e social. Mas é o que acontece sempre que o país se vê confrontado com um evento mais extremo. A primeira estrutura a cair em situações de crise é aquela que integra os produtos e serviços mais básicos à sobrevivência. A prevenção simplesmente não existe e a máquina do Estado é tão pesada, que não consegue dar uma resposta à altura.
É em plena crise que a população descobre que existem comportas de barragens que não funcionam por falta de manutenção; que não existem geradores de reserva para o fornecimento de energia elétrica numa situação de emergência; que os meios humanos e materiais do exército têm de ser requisitados pela proteção civil; que existe uma autoridade central que deve coordenar uma resposta do Estado Central, mas que em situações de crise perde o contacto com as estruturas regionais e locais.
O Estado tem de perceber que os fenómenos cíclicos ocorrem ciclicamente e exigem preparação. É nos tempos de seca que devem ser realizadas obras de limpeza e de manutenção; é nos períodos de cheias que devem ser projetadas as urbanizações e as vias de comunicação; é preciso investir em redes (luz, água, saneamento, gás) mais resilientes às intempéries e criar uma rede de abastecimento de reserva que possa estar disponível em qualquer parte do país em poucas horas.
Aqui chegados, os leitores estarão a pensar, com toda a justiça: «Esta semana o Nuno escreveu um artigo que não acrescenta nada. São só «verdades de La Palice», que já toda a gente sabe e conhece».
É verdade, mas, se assim é, por que não o fazem?!
Nuno Campos Inácio é editor e escritor
Crónica publicada em:
