Cada um é como é! Achar que, após uma vida maturada, vivida e sentida, se consegue mudar a forma de agir e de pensar dos outros é acreditar, ingenuamente, que conseguimos mudar o mundo apenas com palavras. Não me considerando alguém que extrema as suas posições, seja sobre o que for, tenho vindo a registar cada vez mais uma radicalidade latente em muitos dos meus interlocutores.

Há um conjunto de forças tecnológicas, sociais e culturais que ajudam a explicar a razão por que tanta gente em Portugal – e não só – expressa posições políticas cada vez mais extremadas em público. Não é um fenómeno simples, nem único, mas há padrões claros que ajudam a perceber o que está a acontecer: a forma como são arquitetadas as redes sociais cria polarização estrutural; a frustração gerada pelas políticas económicas e financeiras criam terreno fértil para os discursos radicais; a desilusão e a fragmentação partidária criam estruturas e identidades políticas inflexíveis e intolerantes; em vez de racional, a política está a tornar-se cada vez mais emocional; a desinformação cria perceções distorcidas e erróneas da realidade; os espaços de troca de ideias e de ideais refletidos e moderados estão sujeitos a um desgaste e abandono cada vez maiores; a assimilação e a reprodução das tendências globais instalaram-se na forma como reagimos aos eventos do dia a dia.

Tal como eu, muitos de vós já repararam que “as pessoas discutem mais online”. Infelizmente, é natural!... Os algoritmos recompensam as emoções fortes: a raiva, a indignação e o choque geram mais “cliques”; os conteúdos ponderados têm menos alcance, logo tornam-se invisíveis. A lógica do “nós contra eles” é recompensada: quanto mais tribal for a mensagem, mais viral tende a ser.

Portugal vive tensões estruturais que não são novas, mas estão mais visíveis: a dificuldade extrema no acesso à habitação, os salários estagnados face ao custo de vida, a perceção e sensação de injustiça intergeracional, as desigualdades regionais persistentes, a precariedade laboral e a incerteza sobre o futuro. Quando as pessoas sentem que o sistema não lhes responde, procuram explanações mais duras – e muitas vezes mais simplistas – para explicar o que está errado.

O sistema político português deixou de ser dominado por dois grandes blocos. Hoje, há mais partidos com representação parlamentar e cada um precisa de se diferenciar para sobreviver. A comunicação política tornou‑se mais agressiva para captar a atenção e os eleitores encontram “nichos identitários” onde se sentem representados. Tudo isto cria uma dinâmica de competição permanente, onde o tom sobe porque ninguém quer parecer “morno”.

A política deixou de ser apenas sobre ideias e passou a ser sobre identidade: “Eu sou isto” versus “eles são aquilo”. Discordar é visto como um ataque pessoal, a pertença ao grupo é mais importante do que a coerência e a emoção substitui o argumento. Quando a política se cola à identidade, qualquer crítica é vivida como uma ameaça existencial.

A circulação de conteúdos falsos ou manipulados amplifica os medos, alimenta a indignação, cria inimigos imaginários, faz parecer que o país está mais dividido do que realmente está e como a desinformação é emocional, espalha‑se mais depressa do que os factos.

Antes, a política discutia‑se no café, em família, no trabalho e em associações locais. Hoje, discute‑se sobretudo online, onde não há tom de voz, não há empatia, não há relação prévia, há anonimato, há incentivos para o confronto e a moderação perde terreno porque não tem palco.

A polarização não é um fenómeno isolado, pois alimenta-se dos movimentos populistas internacionais, dos influenciadores políticos globais, das narrativas importadas (anti‑sistema, anti‑elite, anti‑imigração, etc.) e dos estilos de comunicação agressivos que se tornam virais. A polarização não é inevitável, mas também não desaparece sozinha!

O que está em jogo é a qualidade do debate público e a capacidade de resolver problemas coletivos. Lidar com discursos radicais – tanto online como presencialmente – é um desafio real, mas não é inevitável cair no mesmo tom. Há estratégias muito eficazes que reduzem a tensão, protegem a nossa energia e, às vezes, até abrem espaço para conversas mais construtivas e produtivas. A solução é perceber que não temos de ganhar a discussão, temos apena de gerir a interação.

Sem nos preocuparmos, nem desgastarmos, deixo aqui algumas estratégias para responder a discursos radicais nas redes sociais e em reuniões presenciais: responder devagar e espaçadamente com o intuito de quebrar o ciclo emocional; evitar a ironia, tentando impedir respostas desnecessárias e desadequadas; focar no conteúdo, não na pessoa, reduzindo assim a hostilidade; fazer perguntas que desmontem os radicalismos ideológicos; estabelecer limites claros na conversação; saber quando responder e quando ignorar; esvaziar a tensão logo no início do diálogo, estabelecendo os tópicos a abordar; focar na emoção por trás da opinião, pois, quase sempre, o radicalismo resulta do medo, da frustração e/ou da sensação de injustiça; evitar o confronto direto; sair da conversa com elegância.

Em suma, não devemos personalizar, não tentar converter, reforçar os pontos de acordo, usar o humor adaptado às circunstâncias e, finalmente, proteger o nosso bem-estar. Porque não há opinião política que valha uma amizade!

Paulo Cunha é professor

Crónica publicada em:

Foto: Daniel Santos