Museu Municipal de Faro, até 29 de março

Talvez seja a primeira vez que são mostradas no Museu Municipal de Faro obras de Vieira da Silva (1908-1992): só por isso, a visita valeria a pena. Mas existem outros motivos para se ir ao Museu. Antes de mais, a ocasião assinala a colaboração entre a instituição municipal e a Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva, de Lisboa, que alberga e dinamiza as obras do casal de artistas, não apenas exibindo o que produziram, mas criando mostras que têm por eixo quer a produção de ambos, quer conceitos que em Vieira da Silva e em Arpad Szenes se cruzam. Além de testemunhar a muito interessante colaboração (que se espera possa continuar), visitar a exposição itinerante «Os Frutos da Liberdade» permite conhecer uma das menos conhecidas vertentes da obra de Vieira da Silva, as suas peças gráficas, entre gravuras de buril, água-tinta, litografias e serigrafias: nas salas do andar cimeiro do antigo convento, podem ver-se 32 peças que fazem parte de um total de 375 obras gráficas que a artista produziu ao longo da sua vida. A seleção, segundo o diretor do Museu, Marco Lopes, teve por critério aspectos técnicos, a “diversidade temática” e “o período de criação”, balizado entre os anos de 1961 e 1990 – ou seja, cobre o intervalo de tempo que inclui a revolução que libertou Portugal da longa ditadura e fez com que entrasse na atual democracia. A exposição, aliás, integra-se num conjunto de comemorações do meio século de Democracia em Portugal. Mas não foram só políticos e sociais os «frutos» desta «liberdade», para referir o título da mostra: foram e são, também, obras de arte.

Quem visite a exposição reconhecerá traços de algumas das obras mais visíveis de Vieira da Silva, como os desenhos que decoram a estação de Metro da Cidade Universitária, em Lisboa. Verá igualmente as linhas e as cores de quadros como «A poesia está na rua», que realizou a propósito da revolução do 25 de Abril, dois anos depois de Sophia de Mello Breyner ter vaticinado no livro Dual, no poema a que chamou «Maria Helena Vieira da Silva ou o Itinerário Inelutável»: “... um dia emergiremos e as cidades / Da equidade mostrarão seu branco / Sua cal sua aurora seu prodígio”.

As obras de Vieira da Silva, lê-se na página da Fundação, “evocam a Liberdade e os seus valores essenciais – a livre expressão, a circulação das ideias e o respeito pela diferença”. Poder observar de perto as gravuras agora expostas no Museu Municipal de Faro ajuda a perceber como se concretiza essa liberdade, que imagem tem a sua ausência – por exemplo, na serigrafia a cores sobre tecido, L’Exode, de 1968, dedicada a Maria Fernanda; ou como uma revolução pode fundar uma biblioteca humorística – veja-se a colorida e dinâmica litografia a 19 cores sobre papel, intitulada, precisamente, «La Bibliothèque humoristique», de 1974. Neste quadro, uma das inúmeras «bibliotecas» representadas na arte de Vieira da Silva, é divertido tentar reconhecer as lombadas perfiladas em estantes que se assemelham a estendais de roupa. Surgem autores clássicos (“Aristóteles”?) a par de outros, mais próximos no tempo: será a lombada inscrita com «LD / F» uma referência ao pessoano Livro do Desassossego, cuja primeira edição data de 1982...?

Ana Isabel Soares é professora

Crónica publicada em:

Foto: Vasco Célio