A expressão «chorar sobre o leite derramado» significa que não vale a pena lamentarmo-nos ou arrependermo-nos por algo que já aconteceu e já não pode ser mudado. Essa metáfora, que tem origem na vida rural, onde o leite era/é valioso, simboliza a ideia de aceitar o que já passou e seguir em frente. É um facto, em vez de ficarmos presos ao passado, é mais importante focarmo-nos no presente, tentando encontrar soluções para evitar novas perdas no futuro.

Verifica-se atualmente em muitos países um retrocesso civilizacional que poderá ser explicado pela perda sistemática de direitos, pelo enfraquecimento das instituições democráticas e pelo aumento das desigualdades sociais. A esses fatores determinantes poderemos também juntar a polarização política, a desinformação e os desafios ambientais, comprovando-se assim que o retrocesso é multifacetado e resulta de uma combinação de causas locais e globais.

Entre os exemplos concretos de perda de direitos, destaca-se a restrição ao direito de manifestação em vários países, bem como o aumento de políticas que limitam o acesso à informação e à liberdade de imprensa. O enfraquecimento das instituições democráticas pode ser observado na erosão da independência judicial, na manipulação de processos eleitorais e na crescente interferência do poder executivo sobre os órgãos fiscalizadores. Relativamente ao aumento das desigualdades sociais, verifica-se uma concentração crescente de riqueza, cortes em políticas sociais essenciais e a marginalização de grupos vulneráveis, perpetuando assim ciclos de pobreza e exclusão.

Apesar do acesso à informação e de um elevado grau de literacia, indivíduos considerados esclarecidos podem, em determinados contextos, apoiar líderes autoritários. Diversos fatores contribuem para esse fenómeno. Em momentos de instabilidade económica, insegurança social ou crise de representação política, a promessa de ordem, eficácia e mudança rápida oferecida por figuras de perfil dominante e autoritário pode tornar-se extremamente sedutora. Frequentemente, estes líderes apresentam soluções simples para problemas complexos, o que pode parecer pragmático ou até visionário aos olhos de quem se sente frustrado com a lentidão e a fragmentação das democracias tradicionais.

A polarização política e a desinformação - mesmo entre pessoas instruídas - criam bolhas de perceção que reforçam narrativas e discursos de medo, ameaça e urgência. Por vezes, a defesa de valores ou interesses específicos (económicos, culturais e identitários) sobrepõe-se aos princípios democráticos, levando ao apoio de soluções autoritárias como meio de proteção ou preservação desses valores. Importa também destacar o desencanto com as elites políticas tradicionais e a perceção de corrupção ou ineficácia que pode motivar o voto em figuras que, apesar do carácter autocrata, prometem renovação e rutura com o sistema. Assim sendo, votar em ditadores não é necessariamente o resultado de ignorância, mas sim o reflexo de inquietações profundas, perceções de ameaça e a procura por respostas imediatas num contexto de complexidade e incerteza.

O extremismo, em qualquer das suas formas, emerge frequentemente como catalisador de degradação social, precisamente porque alimenta divisões, fomenta a intolerância e mina os alicerces do convívio democrático. Ao promover explanações simplistas e maniqueístas, o extremismo recorre ao medo, à desinformação e à antagonização do «outro» para justificar a exclusão e legitimar práticas discriminatórias. Este ambiente polarizado enfraquece a coesão comunitária, tornando cada vez mais difícil o diálogo e o entendimento mútuo.

Ao se imporem, as ideias e os ideais radicais provocam a erosão dos direitos fundamentais, a limitação das liberdades e garantias e a deterioração do funcionamento das instituições democráticas. Mergulhada em ciclos de medo e hostilidade, a sociedade vê assim aumentar as desigualdades, a marginalização de grupos vulneráveis e a fragilização das estruturas sociais. O extremismo não só aprofunda as fissuras já existentes, como impede avanços sociais, colocando em risco a construção de comunidades mais justas, inclusivas e resilientes.

É um facto: de que interessa lamentar “Ao que isto chegou!?”, quando está nas nossas mãos refletir e agir sobre “Como é que se chegou a isto?”.

Paulo Cunha é professor

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Foto: Daniel Santos