“A indústria cultural perfidamente realizou o homem como ser genérico. Cada um é apenas aquilo que qualquer outro pode substituir: coisa fungível, um exemplar”.
T. Adorno

Assistimos a mais uma polémica no universo das diatribes virtuais: a declaração do ator Timothée Chalamet sobre a ópera e o balé causou indignação mundial. Fala-se até que o ator, concorrente ao Oscar pela sua magnífica atuação no filme Marty Supreme, pode ter saído do páreo depois da sua fala. E o que disse o ator? Que não o convidassem para trabalhar nem numa ópera nem num balé porque são formas artísticas que perderam importância e que estão sempre a precisar de ser salvas. Foi uma declaração desastrada, mas, se pararmos para pensar, sem nos armarmos em espectadores ativos de óperas ou de espetáculos de balé (não incluindo os que somos obrigados a ver porque os filhos, o sobrinho ou a filha da vizinha participam), quantas pessoas, de facto, assistem a ambos, de maneira informada e regular? Muita gente, sem dúvida. Mas muita gente num universo de quanta gente? Fiz uma enquete rápida com os meus alunos de artes. Nenhum deles viu ou pretende ver ópera ou balé. Não lhes foi ensinada, nem em casa nem nas escolas, a importância de conhecer Wagner ou de apreciar Tchaikovsky. Ou mesmo Pina Bausch. Aliás, quantas pessoas assistiram ao filme de Wim Wenders sobre Pina Bausch? Ou quantas pessoas sabem quem é Wim Wenders? Continua a haver uma elite informada que se deleita com espetáculos nos grandes teatros do mundo, não tenho qualquer dúvida. Os teatros enchem, continuamos a ter grandes bailarinos e cantores de ópera. Mas pergunto novamente: quantas pessoas são muitas pessoas num universo de milhares? A geração de Chalamet, e o seu entorno, de um modo geral, quase não vai nem ao cinema. Sobretudo se o programa inclui filmes experimentais ou de realizadores desconhecidos de países menos conhecidos ainda.

Não tenho dúvidas de que a sua declaração foi politicamente incorreta e de que ele deve estar a ser cancelado por milhares e aclamado pelo dobro dos milhares. A cultura eurocêntrica, que eu particularmente admiro e amo de paixão, resiste. Mas há muito custo. Não é só o balé e a ópera que precisam ser salvos. São as artes em geral. Não aquelas que são espetacularizadas e que movem montanhas de dinheiro, mas aquelas que não têm espaço para existir porque ninguém as financia, distribui ou consome. Tenho a certeza de que os espetáculos desprezados pelo ator vão estar cheios nos próximos meses. Além dos habitués, vão aparecer neófitos que irão disputar a tapa o último bilhete para o Scala de Milão. Depois voltarão ao seu consumo diário de reels, Netflix e filmes que seguem o modelo, ainda persistente, do cinema industrial estadunidense. Ouvi, numa conferência, um encenador contar a sua experiência em Inglaterra. Encenaram uma das óperas mais conhecidas e convidaram um público vasto, pessoas que nunca tinham visto uma ópera. À saída, foram entrevistar alguns dos espectadores e grande parte disse que tinha gostado muito da experiência. Mas que não pretendia voltar. São muitas as questões que aqui se entrelaçam. Há ainda os defensores das teorias pós ou decoloniais que se juntam à turba dos indignados. Ué, agora é cool defender uma arte eurocêntrica que faz parte da colonização cultural? Tinha eu uns 10 anos e fui levada pelos manos a um festival de cinema do Bergman. Do alto da minha arrogância infantil eu disse: tenho a certeza de que muita gente que está aqui não está entendendo nada. Claro que fui devidamente calada por um dos manos, que me chamou de “metida”. Quando saímos do cinema, um grupo de pessoas à nossa volta comentava: mas vocês perceberam alguma coisa? Já não tenho a arrogância dos 10 anos. Mas adquiri o cinismo da idade. Desde que falem, podem falar até mal da ópera, do balé, do cinema experimental, das artes digitais, da pintura, dos museus, das bienais… Desde que falem. Porque é essa voz que faz com que a arte não morra. Ou se torne obsoleta.

Mirian Tavares é professora

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Foto: Isa Mestre