Sabendo se mover e comover (…)
Vinícius de Moraes
Ouvi, entre escandalizada e cética, a entrevista do primeiro português expatriado do Irão. O senhor, com enfadonho ar de beto, disse que estava à beira da piscina, no seu hotel de 5 estrelas, quando foi levado para o bunker do hotel. E disse ainda que achou “muito giro” ver os mísseis e os drones que brilhavam no céu. Escandalizada, porque nunca tinha visto tamanha falta de consciência e de empatia, escancarada, proclamada para vários jornalistas, sabendo que seria transmitido em cadeia nacional, para já, e retransmitido pelas redes ao resto do mundo. Cética, porque primeiro achei que aquilo era uma montagem, fruto da engenhosidade das pessoas com a IA. Mas não: era, de facto, um sujeito real a dizer coisas absurdas, não era deepfake. Mal comparando, outro dia estava a estacionar no parque do Shopping Center e, parada à minha frente estava uma criatura, com a porta do carro aberta a ver-me fazer manobras. Quando entrei na vaga, percebi que ela tinha o carro demasiado para trás e o meu não caberia ali. Fiz-lhe sinal com as mãos, a mostrar-lhe que não conseguia estacionar e ela esbraceja e fala, em alto e bom tom, que havia montes de vagas, porque que queria eu parar logo ali. Fiquei a olhar até que ela entrou no carro e afastou-o para que o meu coubesse. Dou marcha atrás e vou parar noutro lugar. A criatura estava PARADA ao lado do carro, a ver-me tentar estacionar e, em vez de arrumar melhor seu carro, ficou a ver-me sem fazer nada, à espera, provavelmente, que eu batesse na traseira do seu carro. Este é apenas um exemplo de centenas de gestos, ou falta deles, que presenciamos quotidianamente. Cada um só se vê a si mesmo e que se dane o civismo, a educação, a boa-vontade, em suma, a empatia. Sentir com o outro e perceber que aquilo que eu não quero que me façam também não deveria fazer a ninguém. Isso até está escrito no Novo Testamento, já que andam tantos e tão bons cristãos de pacotilha a invocar o coitado de Deus a cada enormidade que cometem, em nome de um suposto bem maior. Andamos todos com vontade de rosnar, de morder uns aos outros, de enfiar a mão na cara de alguém. E esse mau-humor que nos afasta dos outros é uma pescadinha de rabo na boca – ninguém quebra o ciclo e por isso seguimos, infinitamente, num ciclo de desamor e de desrespeito. Voltando ao sujeito que presencia o início de uma guerra insana e cuja única preocupação é dizer que estava num hotel de 5 estrelas à beira da piscina, fico a pensar em que ponto da civilização recuámos de forma tão abrupta. Estamos perante o “enlouquecimento” global e não há nada de poético ou de feliz nessa loucura. Há apenas a sensação de detachment, de não pertencimento. E ficamos cada vez mais infelizes, raivosos e sós.
Mirian Tavares é professora
Crónica publicada em:
Foto: Isa Mestre
