Por afrontamento do desejo
insisto na maldade de escrever
mas não sei se a deusa sobe à superfície
ou apenas me castiga com seus uivos (...).
Ana Cristina César

“Mulher de 50 só serve para fazer churrasco”, disse um amigo há muitos anos. Na altura, eu estava no esplendor dos 20. Discordei com violência dessa frase machista e absurda, mas, com o passar do tempo, tenho pensado no que ele realmente quis dizer. Depois dos 50, as mulheres tornam-se invisíveis, de moto próprio ou devido ao papel que lhes é dado na sociedade. As mulheres de 50 são, muitas vezes, trocadas por modelos mais novos. Sofrem dos calores da menopausa e do desejo que diminui – o que é paradoxal: fica-se mais quente e menos quente em simultâneo. É certo que os 50 são os novos 40, vive-se mais e fica mais longe a idade em que nos consideramos velhos. Outro dia, alguém me falava da morte de um parente. Perguntei: quantos anos ele tinha? 80. Tão novo! Imagina, aos 80 ainda podemos ser novos, dependendo do lugar de onde se olha. Claro que a mim me dá jeito, passados vários anos dos 50, que os 50 sejam os novos 40. Que as mulheres se cuidem e se mimem e que troquem os chinelos pelos saltos. Mas sinto na pele o passar dos anos, as marcas, o peso metafórico e literal da idade. Quando entrei na menopausa, o meu ginecologista disse: bem-vinda ao outono da vida. Mudei de ginecologista. O outono, apesar de ser uma bela estação, é também o tempo do recolhimento, das folhas que caem, do frio que começa a apertar a alma. Não me sinto no outono, mas sinto-me, muitas vezes, invisível. Parece que a nós, mulheres maduras, chamemos-lhe assim, é negado o desejo de ser desejante. E também de ser desejável. Mesmo que já não nos recolhamos no abrigo do lar a fazer tricô, vivemos, muitas vezes, num estado “entre”. Ainda não somos velhas, mas também não somos jovens. Já passámos por muito e, às vezes, paira sobre nós o espírito de Mallarmé: a carne é triste e li todos os livros. Há centenas de frases de motivação, de exercícios para a autoafirmação, para o autocuidado e para aumentar a autoestima. Mas a verdade, e digo pelo que sinto e pelo que vejo nas amigas à minha volta, é que nos tornamos loucas, pesadas, difíceis. Tornamo-nos desinteressantes. Ou, pelo menos, muitas de nós sentem-se assim – não mais objetos do desejo, sequer, sujeitos desejantes. Talvez porque esteja quase a fazer anos, penso nessas coisas. E é um exercício quotidiano desarmar o estigma, que é também de cada uma de nós. Às vezes, bate o desejo, qual Greta Garbo, de gritar: I want to be alone. Mas é maravilhoso como a vida é um bicho interessante e provocador. A psicanálise diz: a saída é pelo desejo. E não desejo virar carne para churrasco tão cedo.

Mirian Tavares é professora

Crónica publicada em:

Foto: Isa Mestre