No ponto mais alto de Alcoutim, a Ermida de Nossa Senhora da Conceição ergue-se como um farol antigo. Do adro, a vista abre-se para o Guadiana, para o castelo e até para Sanlúcar, já em Espanha. A escadaria barroca, construída no século XVIII, conduz os visitantes até um templo que é mais velho do que a própria igreja matriz e que durante séculos foi a primordial Igreja de Santa Maria de Alcoutim.
O portal manuelino, o altar-mor em talha dourada nacional, a rara mesa de altar forrada a azulejos hispano-árabes e as pinturas murais, testemunham um legado de quase sete séculos de história. Classificada como Monumento de Interesse Público desde 2015, a ermida foi sede da Confraria dos Soldados e, mais recentemente, núcleo de arte sacra.
Apesar de intervenções nos anos 90, o edifício voltou a mostrar fragilidades. Uma candidatura ao Algarve 2030 trouxe agora uma nova vida: reparação de muros e coberturas, recuperação de pavimentos em madeira e tijoleira, substituição do velho relógio, reorganização do adro e criação de acessibilidades com uma plataforma para pessoas com mobilidade reduzida. O espaço envolvente foi igualmente requalificado, com melhorias na drenagem, iluminação e estacionamento.
Mas a reabilitação não se fica pela pedra e pelo estuque. O projeto contempla também a conservação do património móvel — retábulos, imagens e talha dourada — e abre o espaço a novas funções: acolher artes, espetáculos e residências criativas, em articulação com associações locais e com a comunidade artística estrangeira que encontrou em Alcoutim lugar para viver e criar.
A ermida integra hoje a rede cultural da vila, ao lado do Castelo, da Casa dos Condes e do Espaço Guadiana, e passa a ser ponto obrigatório para turistas e residentes. O objetivo é claro: aumentar visitantes em 1 por cento ao ano, dinamizar a programação cultural e reforçar a identidade de Alcoutim como terra de fronteira e de memória.

