Numa altura em que se fala cada vez mais de turismo sustentável e regenerativo ou ainda de processos de certificação para reforçar a eficiência e a conduta responsável deste sector de actividade, importa demonstrar o que é real e verdadeiro e o que é fictício e enganoso. É nesse sentido que começamos a assistir, em diferentes níveis, à adopção de medidas com o objectivo de clarificar junto do cliente final o que realmente está por detrás da actividade turística e o seu real impacto no território.

Um bom exemplo vem da União Europeia. Até dia 27 de Setembro do corrente ano, os Estados Membros terão de adoptar para os seus quadros legislativos a nova directiva «
Empowering Consumers for the Green Transition»*, que visa proteger os consumidores de informação falsa, nomeadamente do greenwashing, e dar-lhes toda a informação, objectiva e factual, acerca do impacto ambiental e social, bem como da circularidade de produtos e serviços no espaço europeu. Isto aplica-se também ao turismo e expressões como «Eco Tour», «Eco-friendly» ou até «Hotel Sustentável» não vão poder continuar a ser usados, correndo o risco de denúncias e de penalizações. Tudo o que não seja devidamente comprovado com dados técnicos reais e que estejam à disposição do consumidor, não pode ser alvo de marketing para enaltecer o grau de sustentabilidade de um produto ou de uma empresa.

Dizer que o Turismo tem um impacto positivo em determinado território, numa comunidade ou na conservação de um ecossistema é algo hoje em dia quase banal. Mas o quão verdadeiro é isso? Vários investigadores referem que os níveis de
Tourism Leakage ou «Fuga Turística» (valor pago pelo turista que não fica no destino visitado) atinge percentagens muito significativas em diversos países do mundo, sobretudo no hemisfério sul (ex. na Tailândia calcula-se em 70 por cento). Ou seja, enquanto os benefícios económicos do turismo deixam alguns muito satisfeitos, em muitas regiões as comunidades locais têm de suportar os custos desse mesmo turismo, seja a nível da degradação ambiental e cultural ou até económico, nomeadamente pela especulação imobiliária. E em vários destinos, incluindo na Europa, isso começa a levar a protestos e manifestações populares, como já aconteceu em Barcelona ou nas Canárias. Claro que há muitos e bons exemplos que garantem verdadeiros retornos positivos nos locais visitados. São, sobretudo, projectos construídos em rede, com envolvimento de agentes locais, as comunidades e outros participantes, que garantem não só o sucesso da viagem ao turista, mas verdadeiro impacto territorial.

Contrariar o «
greenwashing» e provar que o turismo afecta efectivamente os destinos de forma positiva, obriga, necessariamente, a provas e à apresentação de dados. E, para tal, a realização de medições é fulcral. Neste processo é fundamental o envolvimento honesto dos agentes empresariais, bem como das entidades gestoras dos destinos turísticos enquanto detentoras de poder mediador e regulatório da actividade. É ainda preciso definir uma boa variedade e qualidade de métricas que expressem o que realmente ocorre no território ao longo do ano e em várias partes do mesmo.

Muitos operadores internacionais já estão a percorrer esse caminho (pelos menos aqueles mais sensíveis aos temas da sustentabilidade), sabendo que os consumidores vão estar cada vez mais conscientes destes temas. Destinos como o Algarve, onde se proclama a excelência turística, não pode ficar atrás. Há que medir o turismo e gerir melhor a actividade e o território.
 

João Ministro é empresário e engenheiro do ambiente

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