O interior de Portugal não pode continuar a ser tratado como uma região secundária ou esquecida. Apesar da sua enorme importância histórica, cultural, económica e ambiental, estas zonas têm sido frequentemente marcadas pelo despovoamento, pela falta de investimento e pela desigualdade no acesso a serviços essenciais.

Falar do interior é falar de milhares de portugueses que continuam a viver, a trabalhar e a resistir em territórios que tantas vezes são ignorados pelas decisões políticas e administrativas. É falar de famílias que enfrentam dificuldades acrescidas para aceder a cuidados de saúde, a transportes públicos, a escolas, a serviços do Estado e até a ligações digitais de qualidade. É falar de jovens que, muitas vezes, são forçados a sair da sua terra, não por falta de vontade de ficar, mas por falta de condições para construir ali o seu futuro.

Discriminar o interior é aprofundar as diferenças entre portugueses. Considero uma realidade completamente injusta, perigosa e profundamente lesiva para a coesão nacional. Um país não pode ambicionar desenvolvimento verdadeiro se continuar a concentrar recursos, investimento e atenção apenas no litoral e nas grandes áreas urbanas, deixando para trás vastas regiões que têm potencial, riqueza e capacidade de contribuir para o futuro coletivo.

No meu dia a dia, continuo a ver situações claras de discriminação. Essa discriminação manifesta-se de várias formas, na dificuldade de acesso a serviços públicos, na demora de respostas administrativas, na escassez de transportes, na desertificação de equipamentos essenciais e, também, na forma como muitos apoios e fundos comunitários nem sempre chegam de forma justa e eficaz. Existe uma série de desigualdades cada vez mais frequentes, que vão abrindo uma ferida cada vez mais profunda na sociedade portuguesa.

No interior do país, existem muitas escolas encerradas que testemunham o abandono progressivo de várias comunidades. Algumas dessas antigas escolas foram requalificadas e aproveitadas para outros fins, o que demonstra que é possível dar uma nova vida a estes espaços. No entanto, muitas continuam sem qualquer utilização, votadas ao esquecimento e a degradarem-se dia após dia. Esta realidade representa, não só a perda de património público, mas também o reflexo da desertificação humana e da falta de estratégia para revitalizar o interior. Em vez de serem deixadas ao abandono, estas infraestruturas poderiam ser recuperadas e transformadas em espaços de apoio social, cultural, associativo ou até empresarial, contribuindo para devolver dinamismo às localidades onde se encontram.

Portugal precisa de deixar de olhar para o interior como periferia e começar a reconhecê-lo como prioridade. Isso exige mais do que discursos ocasionais. Exige investimento real, descentralização efetiva, incentivos à fixação de empresas e famílias, reforço dos serviços públicos, melhor aproveitamento dos fundos europeus e uma política de desenvolvimento regional que não trate todos por igual quando as desigualdades de partida são tão diferentes. Tratar de forma justa é, muitas vezes, investir mais onde há mais fragilidade.

O interior de Portugal não pode ser discriminado. Não por razões económicas, não por razões geográficas, não por conveniência política. Um país verdadeiramente desenvolvido mede-se pela forma como trata todos os seus territórios e todos os seus cidadãos. O problema não é apenas económico, é também social, humano e democrático.

Fábio Jesuíno é empresário

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