Cansada de um inverno invulgarmente longo, aos primeiros raios de sol corro para junto do mar. Procuro o sítio do costume, um recanto afastado da ilha. Como sempre, quase ninguém. Do alto do passadiço, demoro-me a observar a leve ondulação de prata. As gaivotas, guardiãs da praia, são certamente as mesmas que aqui deixei no final do verão passado: olham-me de esguelha e, com um aceno de cabeça, autorizam-me a entrar.

No areal, apenas uma mulher e uma criança. Um guarda-sol, como os de antigamente, com riscas largas a formar triângulos de cores vivas.

O aroma inconfundível da maresia, das plantas que cobrem as dunas. E o marulhar? Ah, o marulhar…

Retiro os óculos, fecho os olhos, ergo o rosto na direção do sol. A pele, sequiosa, bebe o calor. Que saudades tinha do verão!

Um brado desperta-me deste estado de quase encantamento.

— Não entres na água! Ainda não fizeste a digestão!

Abro os olhos. A mãe levanta-se e gesticula para que a criança regresse à zona de segurança. A pequena devolve-lhe um olhar triste e obedece. Em passo lento, muito lento. Os ombros descem-lhe, pesados. A mãe insiste, chama-a para a sombra. Diz qualquer coisa que não ouço, mas reconheço o cenário: a mão no ombro da menina, a areia sacudida, a toalha ajeitada para que se deite.

Recordo o sofrimento: a espera, a sombra, a voz insistente a mandar-me dormir a folga. A amaldiçoada folga, atentado à energia inesgotável da infância. É verdade que não perecia de congestão, mas ficava à beirinha de morrer de tédio.

Naquele tempo, havia mil maneiras insólitas de ir desta para melhor — e, sendo para melhor, era difícil perceber tanta aflição.

Água fria durante a digestão era o fim. Nem por fora, nem por dentro. Sim, porque ingerida tinha a mesma consequência. Estávamos, por isso, condenados a três horas de enfado e água morna.

Deitávamo-nos contrariados, fingindo fechar os olhos. Na verdade, estavam apenas semicerrados, em vigília, à espera. Resistir ao sono era uma batalha perdida para os adultos, vencidos pelas baforadas quentes do ar. Escapávamos. Não nos atrevíamos a entrar na água — a crença estava instalada —, mas ficávamos por ali, na areia, entregues ao tempo: a brincar; a descobrir as cores escondidas nas conchas de madrepérola; a explorar o interior dos ovos de choco trazidos pelo mar, presos a galhos; e a deixar que minúsculos caranguejos translúcidos nos fizessem cócegas nas mãos e nos braços.

Longe das praias escondiam-se outros perigos fatais. As correntes de ar, silenciosas, traiçoeiras, letais. O andar descalço, origem de inúmeras constipações que acabavam em pneumonia e, depois, já se sabe. Sair com o cabelo molhado era imprudência grave. Dormir destapado, quase uma sentença. Beber leite e comer laranja, um perigo. Engolir caroços era particularmente arriscado: podia nascer uma árvore dentro de nós ou crescer um pé de feijão que, ao invés de sair por uma orelha, se embrulhasse no cérebro e, está visto, íamos para os anjinhos. E o que dizer das pastilhas elásticas, que, uma vez engolidas, se colavam ao estômago e nunca mais saíam? Era a morte do artista.

Havia, pois, perigos por todo o lado, mas, curiosamente, não se morria dos que hoje nos espreitam. Era seguro andar de carro sem cinto; andar de mota e de bicicleta sem capacete e a fazer acrobacias; descer as ruas em seguríssimos carrinhos de rolamentos; viajar em pé em carrinhas de caixa aberta; viver em casas onde o fumo do tabaco se podia confundir com uma manhã de nevoeiro. E ninguém falecia por subir às árvores, saltar muros, correr por telhados ou atirar-se para dentro de tanques.

Também não era por cair que a coisa se dava. Uma sorte, considerando que caíamos muito.

Joelhos abertos, cotovelos em carne viva, cabeças rachadas, e os adultos, imperturbáveis, a tratar tudo como pouco mais do que nada:
— Ai, que grande dói-dói! Olha, vê lá se não te saem por aí as tripas.

Não havia ferida que não sarasse com um golpe de mercúrio ou de água das malvas.

Também não se morria por comer pão com manteiga e açúcar, em camadas generosas, nem por molhar torradas na banha ainda quente da fritura. Nem sequer por começar o dia com uma gemada crua dentro do café. Sim, as crianças bebiam café, e não fazia mal. Bebíamos água da mangueira do quintal ou de qualquer outra que encontrássemos pelo caminho, comíamos fruta diretamente da árvore, limpando-a à camisola. Caía? Apanhava-se, soprava-se e marchava.

— O que não mata, engorda — era sabido.

Hoje, mudaram os receios, mudaram as recomendações, temos outros papões ao virar da esquina.

Ainda assim, antes de avançar para o apetecido mergulho, olho para o telemóvel.

13h40.

Falta uma hora para acabar de fazer a digestão.

Vou sentar-me numa esplanada e já cá volto.

Pelo sim, pelo não…

Sílvia Quinteiro é professora

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