Hoje, na praia, enquanto cumpria o ritual farense de ir olhar o mar depois do almoço de domingo, o silêncio foi interrompido pela conversa de dois amigos que ali se cruzaram. Dois ciclistas equipados a rigor. Depois de ficar a saber das façanhas desportivas de cada um e do preço de cada peça do respetivo equipamento, foi-me também dada a conhecer a forma como um deles, com indisfarçável orgulho, ludibriara o médico de família para prolongar a baixa e conseguir treinar todos os dias. Uma cena digna de um grande ator. Tudo isto narrado sem qualquer pudor, num tom suficientemente alto para que nenhum dos presentes ficasse privado da história.

A verdade é que nunca deixará de me espantar a compulsão que certas pessoas têm de transformar desconhecidos em confidentes. E não falo das redes sociais, a que injustamente é atribuída a origem desta epidemia. Ao menos aí, tudo surge filtrado: relações perfeitas, jantares românticos, férias em destinos de sonho. O mesmo não se pode dizer da versão ao vivo e a cores. Das pessoas que, no jardim, no café, no comboio, no autocarro ou na fila do supermercado, relatam pormenores mais ou menos íntimos e mais ou menos sórdidos das suas existências, sempre naquele volume calculadamente generoso que garante audiência total. Não, não é um acaso e não devíamos sentir vergonha alheia. A partilha é consciente e decorre da convicção do elevado interesse que o seu exemplo tem para os demais: seja porque são os mais desgraçados, os mais felizardos, os mais ricos, os mais pobres ou, e isso agrada particularmente ao português comum, os mais espertos. O mundo precisa de testemunhar tamanha inteligência. Na verdade, sabem que só por grande injustiça ou desconhecimento não foram ainda recrutados para um reality show ou entrevistados num programa da manhã.

Sentindo que a criatura aguardava que alguém se aproximasse e lhe entregasse um Óscar, a tentação foi grande. Estive mesmo à beirinha de entrar na conversa. Apeteceu-me explicar-lhe que não era necessário tanto esforço, que escusava de perder tempo de treinos a preparar o teatro. Bastava saber escolher o médico.

Como sei disto? Porque, ao longo dos anos, várias almas me foram dando a conhecer o teor dos seus atestados. Pequenos prodígios da prosa clínica.

Entre os meus favoritos, e sim, já fiz uma lista de doenças que me agradam, encontra-se o caso de uma pessoa que durante dois anos se encontrou de tal forma arrasada psicologicamente que, segundo o atestado, não podia, em circunstância alguma, aproximar-se da porta do local de trabalho. Por sorte, a doença só atacava ali, e assim pôde acompanhar o marido numa estada fora do país durante esse período. Imagine-se como seria se o pobre tivesse tido de percorrer o oriente todo sozinho.

Mas há um caso ainda mais interessante: o de uma pessoa que, sofrendo de dores horrendas por todo o corpo, tem um médico que atesta só poder trabalhar 4,2 horas por semana -o rigor de vírgula 2 é admirável -, na parte da tarde, terminando impreterivelmente antes das 18h. Pode, contudo, viajar e participar em atividades extracurriculares sem quaisquer restrições. Perfeitamente compreensível, até porque qualquer um de nós sabe que acordar para ir trabalhar custa muito mais do que apanhar três aviões para a Patagónia. E quem é que nunca sentiu uma pontadazinha na coluna ao levantar-se à segunda-feira? Há, portanto, patologias assim: altamente seletivas. Dores localizadas, não tanto em regiões anatómicas como em determinadas coordenadas geográficas.

Estes são os clássicos. Têm a sua graça, e dificilmente há quem não conheça alguns. Mas vale a pena acrescentar o caso de alguém que, tendo faltado a uma prova, enviou um e-mail no dia seguinte a explicar que o carro tinha avariado na autoestrada. Quando soube que tal não servia como justificação, fez-se acompanhar de um atestado do seu médico a garantir que, naquele dia, o paciente estava incapacitado de se deslocar. Reli, confesso, para me certificar de que vinha de um médico e não de um mecânico. Tanto quanto sabia, o paciente tinha quatro rodas e volante, e um médico estuda demasiados anos para não distinguir um automóvel de um mentiroso.

Fui eu que ouvi mal, certamente. Não seria a primeira vez.

Se o senhor doutor diz que está morto, está morto, não é verdade?

Sílvia Quinteiro é professora

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