Sou empresário em Portugal desde os 18 anos. Comecei cedo, com aquela mistura de ousadia e ingenuidade que, muitas vezes, é o que separa a ideia da ação.
Criei a minha primeira empresa muito novo, sem verdadeira noção da burocracia que me esperava, nem dos impostos que ia ter de suportar. E, honestamente, ainda bem. Se tivesse tido, na altura, uma fotografia nítida de tudo o que vinha aí, prazos, declarações, custos fixos, regras que mudam, obrigações que se acumulam, não sei se teria avançado. Às vezes, para começar, é preciso não saber demais: é preciso acreditar.
Com o tempo, aprendi o que nenhuma motivação no papel ensina. Em Portugal, empreender não é apenas vender um produto ou prestar um serviço. Não é só encontrar clientes, ajustar preços, diferenciar-se da concorrência e manter a qualidade. Não é só gerir equipas, liderar, criar cultura, formar pessoas e tomar decisões difíceis quando os números apertam. Tudo isso já seria suficiente para tornar a vida de qualquer empresário exigente. Mas por cá existe um desafio adicional, permanente, que paira sobre o dia a dia de quem cria valor: a sensação de que nunca estamos sozinhos na sociedade.
Há sempre um sócio silencioso, o Estado. E não falo do Estado como ideia abstrata, ou como inimigo conveniente para justificar falhas. Falo do Estado enquanto presença constante na operação, nas regras, nos custos, na forma como o tempo do empresário é consumido. É um sócio que não investe capital, não arrisca, não partilha a incerteza do mercado, não está na linha da frente quando o cliente diz «não» ou quando a faturação cai. Mas está sempre presente quando há algo a entregar, a declarar, a pagar, a justificar. Um sócio que domina a agenda, define o calendário e, muitas vezes, dita as prioridades.
Na prática, isto significa que muitos empresários em Portugal vivem numa espécie de dupla gestão. De um lado, a gestão do negócio, produto, serviço, marketing, vendas, operações, pessoas, caixa. Do outro, a gestão do «sistema»: burocracia, contabilidade, fiscalidade, conformidade, relatórios, formulários, plataformas, prazos e alterações que chegam sem pedir licença. O problema não é existir regras, regras são necessárias. O problema é quando as regras e a sua complexidade se tornam num labirinto onde se perde energia que deveria estar aplicada a inovar, contratar, exportar, melhorar processos e servir melhor os clientes.
Portugal é um país formado, em grande parte, por pequenos e médios empresários, verdadeiros pilares da nossa economia. Contudo, o Estado continua a tratá-los como se fossem grandes empresas, ignorando as suas limitações e as evidentes diferenças de escala. Falta uma distinção clara nas políticas públicas, nos apoios e na carga fiscal, o que leva muitos destes empresários a enfrentar as mesmas exigências e obrigações que empresas com recursos incomparavelmente superiores. Essa ausência de sensibilidade para as realidades distintas do tecido empresarial enfraquece o crescimento sustentável e penaliza precisamente quem mais contribui para o emprego, a inovação e o desenvolvimento local. É também uma das razões pelas quais o país continua a ter uma maioria de empresas de pequena dimensão, porque os obstáculos ao crescimento são ainda demasiado pesados e desmotivadores.
Fábio Jesuíno é empresário
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