Sempre que leio a palavra glossolalia, vem-me à ideia a novela distópica que Régis Messac escreveu em 1935, Quinzinzinzili. Demorei a fixar-lhe o título, mas, a partir do momento em que o consegui, sai sem qualquer dificuldade: se o texto de Messac é o relato da perda da linguagem humana, que equivale à perda da Humanidade, aprender uma palavra só através do eco que faz no pensamento é uma maneira de preservar essa linguagem – logo, um modo de sobrevivência do que é humano. Na novela, “quinzinzinzili” é a forma, deturpada ao longo de anos em que um pequeno grupo de sobreviventes de um cataclismo mundial se vai tornando cada vez menos humano, do último verso da oração do Pater Noster, “Qui est in coelis”. Perder o sentido anterior para passar a uma glossolalia, à pronúncia de sons desarticulados, simboliza, segundo Messac, a eliminação do humano. Mas pode ser vista como o começo de alguma coisa que se desconhece (e teme): a erosão de uma linguagem não poderá originar outros modos de comunicação? É uma visão mais otimista, mas não menos lógica.
A palavra e a ideia de “glossolalia” tem um contexto religioso, relacionado com o dia de Pentecostes, ou o momento em que, passados cinquenta dias da crucificação de Cristo, os apóstolos recebem do Espírito Santo os dons que lhes permitirão, na prática, propagar pela terra a mensagem cristã – para tal, para que a possam levar a todos os povos do mundo, um dos dons que sobre eles são “derramados” (Frederico Lourenço sublinha como está na origem da confusão de línguas do episódio descrito em «Atos dos Apóstolos», 2:1-4, um “derramar de líquidos que se misturam e se confundem”) é a capacidade de falar muitas línguas diferentes, a tal glossolalia.
Confusão e possibilidade, estranheza e clareza, perda do que se conhece e abertura para a novidade do desconhecido – estas aparentes contradições, expressões de um inconciliável que, afinal, convive, acompanham-me enquanto ouço Glossolalia, o disco mais recente de A Favola da Medusa, agrupamento que se formou vai para 16 anos e continua a provocar-me os sentidos. Sobretudo porque me traz a mistura de sonoridades inesperadas (sons de água a correr e ruídos mecânicos produzidos por instrumentos tradicionais ou por objetos transformados em instrumentos musicais), sobretudo porque me oferece, ao mesmo tempo, o domínio de melodias nascidas do que normalmente associo à ausência de harmonia e versos de poemas belíssimos (ou a afirmação de que a linguagem que uso continua a fazer muito sentido). Sobretudo, sobretudo, porque me dá a presença, em atmosfera sonora, de pessoas queridas, apaixonadas pelos sons das palavras e por sequências não verbais do mundo, como o Miguel Martins, a Ana Isabel Dias, o Luís França, o João Madeira. Todos, afinal, os que compõem a maravilha que me dão a escutar.
Glossolalia saiu em 2024, pela editora 4darecord. Pode ser ouvido aqui.
Notas: Quinzinzinzili foi traduzido para a língua portuguesa por Inês Dias e está publicado na Antígona. O comentário de Frederico Lourenço sobre o passo dos «Atos dos Apóstolos» encontra-se na p. 52 do volume II da Bíblia que a editora Quetzal tem vindo a editar, na tradução de Lourenço.
Ana Isabel Soares é professora
Crónica publicada em:
Foto: Vasco Célio
