Nada como o desaparecimento de um autor para revisitar a sua obra. Sobretudo, quando se trata daqueles autores que tanto prezamos, tanto fazemos nossos que acolhemos a notícia da morte com a incredulidade absurda de quem os tomava por imorredoiros. Poucas semanas depois da morte de Mário Zambujal, registo a lembrança tão grata do que me deixou. Desde logo, na ocasião em que, há umas três décadas, fazia eu o meu tirocínio de docência no Colégio Internacional de Vilamoura, acedeu ao convite que lhe fiz para ir falar aos alunos sobre isto de escrever literatura – para mim, pelo menos, foi uma conversa inesquecível. Não saberei dizer se algum aluno o recordará, mas acredito que sim. Depois disso, vi-o por vezes na televisão, nos jornais, ouvi-o na rádio – o normal. Mas dar-me conta de que os anos e a vida tinham passado por ele como passam por mim foi uma forma cruel de perceber a óbvia, natural, persistente injustiça da morte. Enfim, é assim com todos os que nos vão morrendo e preferíamos que não fossem (os meus tios mais velhos, puf..., no espaço de um ano), mais ainda quando são ou os fazemos nossos.
O grande contributo para a memória comum, porém, é o que o Mário Zambujal deixa para a posteridade da língua portuguesa, nos livros que foi publicando – sobretudo na merecidamente mítica Crónica dos Bons Malandros. Não reabro há muito tempo as páginas desse livro. Não porque não gostasse de o fazer (ainda o procurei no lugar certo da estante, a zona da prosa portuguesa onde deveria repousar por ordem alfabética, entre a Leonor Xavier de Ponte Aérea e a Ana Zanatti de O Sexo Inútil –, mas a Crónica é mais desassossegada, volta-não-volta pego nela e levo-a para o quarto, para a cozinha, para onde quer que calhe); mas tenho frescas as frases na ideia, como se tivesse acabado de as ler, de lágrimas nos olhos de tanto rir.
Recentemente, além disso (a assinalar o desaparecimento do autor, a RTP2 permitiu-o), pude rever a adaptação para cinema que do livro fez o bom cineasta Fernando Lopes e perceber que não me recordava das suas imagens tão bem quanto das palavras de Zambujal. Em boa hora o (re)vi: foi o antídoto perfeito para a sensação de perda que a morte tinha instalado. Encontrei Zambujal dentro do filme, literal e metaforicamente: numa das cenas, quando Silvino Bitoque (Duarte Nuno) conta ao resto do bando que a sua passagem pelo crime nos Estados Unidos confundiu até o FBI (“Os FBIs nem sabiam que havia um país chamado Bairro Alto!”, ri), o escritor aparece à esquerda do ecrã, sentado, de cigarro na mão, a uma mesa de café à frente do papel datilografado, como se fosse mais um dos ocupantes do café e partilhasse o mundo com as suas próprias personagens: Renato, Marlene, Adelaide Magrinha, Lina Despachada, Pedro Justiceiro, Arnaldo Figurante (as belíssimas Lia Gama, Céu Guerra, Zita Duarte, os malandros João Perry, Nicolau Breyner, Paulo de Carvalho). O grupo fica praticamente congelado na ação, passa a ser fundo da cena, enquanto o escritor parece hesitante em decidir-lhes, pelas palavras que alinha na página, os destinos. Cada uma daquelas atrizes, cada um dos atores, foi para mim sinal do reencontro com um tempo que já não há – como se repetisse hoje as palavras que Jorge Listopad pronuncia no filme (1984, recorde-se), em comentário à “cleptomania” de Silvino-em-criança, “O Bairro Alto ainda existe?”.
Uma das limitações do filme – o tempo era de apertos orçamentais, fazia-se o que se podia – vem de não se ter podido gravado no local a cena do assalto à Gulbenkian. Mas o realizador encontrou um modo engenhoso e cândido de a substituir e até nisso o despretensiosismo do filme – que inclui um delicioso número musical, ou o próprio Fernando Lopes a receber sobre a cabeça uma coroa de louros caída de uma das estátuas de Lisboa – é paralelo ao do livro. Lisboa é, aliás, como no livro de Zambujal, protagonista: que outra razão haveria para se desenhar ali esta história de malandragem? Porque teria Lopes demorado tanto o olhar sobre ela, por exemplo na noite e nas luzes do Largo de São Pedro de Alcântara? É um belo e nostálgico filme, com momentos que ressoam o hilariante da prosa de Mário Zambujal (por exemplo, na cena de perseguição automóvel em que o carro da polícia desliza, encavalitado nas duas rodas laterais, ou a carrinha dos malandros salta passeios na Praça de Espanha). E termina numa terna nota da ficha técnica, que cala fundo, hoje, o tom de elegia: “Assistente espiritual: Diogo Seixas Lopes” (filho de Fernando Lopes e de Maria João Seixas, que à data teria 12 anos e viria a morrer em 2016, aos 43).
(No dia em que escrevo, 25 de março de 2026, ainda é possível ver o filme de Fernando Lopes através do site da RTP, em https://www.rtp.pt/play/p6498/e915313/cronica-dos-bons-malandros).
Ana Isabel Soares é professora
Ana Isabel Soares é professora
Crónica publicada em:
Foto: Vasco Célio
