Não é precisamente esse assunto que pretendo destacar diretamente, mas sim a importância da mulher na história de Faro e, assim, independentemente dos direitos nas diferentes épocas, destacar feitos e individualidades que marcaram a cidade, a região e o mundo, por via das farenses.
Em artigo anterior permiti-me lembrar do milagre da Nossa Senhora, Santa Maria do Gharb, cantado por Alfonso X. Destaque óbvio, mas fez-me vir à memória as nossas conterrâneas que, com enorme merecimento nos marcam.
Madragana Ben Aloandro, companheira de Afonso III que dela fez registar vária descendência, pois que de D. Matilde, rainha consorte, nenhum filho lhe veio. Desta moira encantada farense conhece-se, através de variada documentação genealógica em destacados jornais internacionais recentes, princesas que ingressaram e estabeleceram a linhagem da atual casa reinante dos Windsor.
Mas de Afonso III, ainda, recebemos, por via do seu (segundo) casamento (que contribuiu para a sua excomunhão pelo Papa, por repúdio da Bolonhesa), com Beatriz, filha (ilegítima, quando isso contava) do já referido Alfonso X de Leão e Castela, o Reino do Algarve «por dote» concretizado na condição de nascimento, desde que perfizesse 7 anos, de varão herdeiro (o que veio a acontecer por via de D. Dinis, primeiro Rei do Algarve por direito) e assim se evitou a continuação da guerra, por décadas, pela posse do território que Castela considerava seu desde a derrota do califado de Niebla seu vassalo já antes da tomada de Faro em 27 de março de 1249.
As mulheres fazem mesmo a diferença nas relações de poder, além do mais.
Lembremos Brites de Almeida (1350), sem cuidar aqui de destacar a sua ação como a padeira (na contenda) de Aljubarrota (1385), serviu para mobilizar o Povo para o reconhecimento e investidura do Mestre d’Avis (por ali aclamado como Rei D. João I), fazendo-o representado na luta pela independência de Portugal. Merece um filme.
Tão marcante foi, nos finais do séc. XV, o facto de D. João II ter oferecido a vila de Faro à proteção de D. Leonor (de Avis), para a integrar na Casa da Rainha. Senhora da fundação das Misericórdias, do Convento de Nossa Senhora da Assunção (antiga ordem de Santa Clara), de uma influência enorme nas causas sociais (instituições cujo trabalho perdura até hoje) e depois por D. Catarina (com D. João III) que concluí a obra conventual dando um novo núcleo urbanístico central na nossa Vila adentro substituindo, junto ao arco do Repouso, a primeira zona da judiaria abandonada desde o decreto de expulsão e com o Largo das Freiras (onde está agora a estátua de Afonso III).
Esse largo ficou registado nas memórias da visita de D. Sebastião (1573) por ser terreiro grande e formoso. Só mais de três séculos depois o Algarve viria a merecer outra visita régia (1897, com D. Amélia e El Rei D. Carlos) …
Mas falando da mais notável obra de Luis Vaz de Camões, dedicada a El Rei D. Sebastião, lembrar, neste contexto, que uma farense, Francisca de Aragão, que conheceu na corte, lhe serviu de profunda musa inspiradora. Camões veio a perder a olho direito numa contenda quando embarcado ao largo da costa do Algarve.
Tal como estas, do tempo da monarquia e já na transição com a República, outras farenses contribuíram e fixaram a história de Portugal. Precisamente Maria Veleda (pseudónimo de Maria Carolina Frederico Crispim), professora, autora, poeta, ativista política pelos direitos das mulheres e das crianças, maçon…
“Pobres éramos, pobres ficámos e pobres somos, mas nas nossas almas arde sempre a mesma chama sacrossanta que nos iluminava quando gritámos pela primeira vez: Viva a República! Porque acima da Morte que me espera, está o ideal que me norteia. Sim. Viva a República”.
Poema de Maria Veleda de 1931, in blogue projetoteclar.:
Penso que hei-de morrer, ai... brevemente
Pois da velhice pesam-me os invernos;
Que hei-de ascender aos gozos sempiternos,
Aos pés de Deus, magnânimo e clemente.
Em plena luz vivendo alegremente,
Do mundo esquecerei negros infernos,
Meus cânticos soltando, ledos, ternos,
Num poema de Amor, efervescente.
Mas quem há-de amparar-vos, ó meus filhos??
Seguir-vos na aspereza destes trilhos??
Incutir-vos coragem p’ra viver??
Tendes outros afectos... sei-o bem!
Mas não tendes, não tendes outra Mãe...
- Então choro... com pena de morrer!...
Continuando com poesia e intervenção pública, agora com outra grande de Faro e de Portugal inteiro, Teresa Rita Lopes (1937-2025), que ainda conheci. Escritora aclamada, investigadora notabilíssima de Fernando Pessoa. Obra imensa: Os dedos, os Dias, as Palavras; … Estórias do Sul;
Margarida Cantinho, Dançarina e Coreógrafa, brilha e faz brilhar nos palcos, impressiona no mundo. As artes estão no seu firmamento, com a irmã Carolina e Faro no coração. Vão ainda dar muito que falar.
Não consigo aqui relembrar todas, mas, perdoem se incluir todas as grandes e mais, ainda na homenagem às (nossas) mães. Capazes de tudo. A minha, com 90 anos, também tem uma vida que dava um filme. Melhor, talvez um fado.
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| Mor Afonso (Madragana, filha do governador mouro de Faro) |
No mundo ainda há um longo caminho para se cumprir a igualdade de género.
Paulo Neves é um «ilhéu», mas nenhum homem é uma ilha
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