Todas as guerras nascem de um paradoxo: são tragédia, mas também oportunidade.

Não existiriam se as partes envolvidas não acreditassem que a vitória lhes trará benefícios futuros capazes de justificar os sacrifícios humanos, sociais e económicos impostos às suas populações. Sempre assim foi — e tudo indica que assim continuará a ser.

Mas a procura de oportunidades não se limita aos intervenientes diretos. Sempre que um conflito irrompe, há terceiros que tentam retirar dele alguma vantagem.

Pouco se fala do papel que os contextos de guerra tiveram no desenvolvimento do turismo no Algarve. E, no entanto, essa ligação é profunda. O mesmo se pode dizer da indústria conserveira, que cresceu para abastecer forças militares durante a II Guerra Mundial.

Fiquemo-nos pelo turismo.

O turismo «organizado» no Algarve, enquanto estratégia regional, começa a ganhar forma com o 1.º Congresso Regional Algarvio, em 1915. A I Guerra Mundial acabara de eclodir. Os destinos tradicionais da Europa estavam devastados ou inacessíveis. O Algarve surgia como alternativa: seguro, com clima ameno, mas ainda com enormes carências ao nível do alojamento e das acessibilidades.

Foi nesse contexto que se lançaram as bases do desenvolvimento turístico da região. Multiplicaram-se hotéis, pensões, restaurantes e casas de veraneio. O Algarve começou a habituar-se a receber.

Mais tarde, entre 1939 e 1945, a II Guerra Mundial voltou a colocar a região no mapa — não apenas como destino turístico, mas também como refúgio. Muitos dos que aqui chegaram acabaram por ficar, investindo, promovendo e ajudando a transformar o território.

Já em tempo de paz, a partir da década de 1960, o Algarve assumiu definitivamente o turismo como a sua principal atividade económica, alterando profundamente a sua estrutura social e produtiva. O turismo é, por natureza, uma indústria da paz — aproxima povos, cria pontes, promove encontros.

Ainda assim, o seu crescimento foi sendo impulsionado, em vários momentos, por instabilidades externas: limitações ao turismo no Leste europeu durante a Guerra Fria, conflitos no Médio Oriente, a guerra nos Balcãs ou, mais recentemente, a instabilidade provocada pela Primavera Árabe, que fragilizou destinos concorrentes no Mediterrâneo.

Hoje, o mundo volta a viver um período de tensão prolongada. Os conflitos multiplicam-se e intensificam-se, fazendo antever um ciclo de instabilidade duradoura.

Não é dramatismo — é contexto. E, como sempre aconteceu, é também oportunidade.

O Algarve tem, uma vez mais, a possibilidade de se adaptar. Mas o turista de hoje já não procura apenas sol e mar. Procura identidade, autenticidade, diferenciação.

A resposta não está em reinventar, mas em regressar ao essencial: à cultura, à tradição, à arquitetura, à preservação ambiental, à vivência comunitária e à hospitalidade genuína.

Há uma história no Algarve que se cruza com a história do mundo. Um território onde muitos regressam — por escolha ou por necessidade — e onde outros reencontram raízes.

Se souber interpretar o tempo em que vive, o Algarve pode transformar a incerteza do presente em base sólida para o futuro. E afirmar-se, não apenas como destino de circunstância, mas como referência duradoura — em tempos de guerra e, sobretudo, nos tempos de paz que se seguirão.

Nuno Campos Inácio é editor e escritor

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