Quem tem por hábito acompanhar as notícias que vão surgindo sobre a região ao nível do seu desempenho turístico, deve ter lido, com alguma surpresa, sobre o 3.º lugar conquistado pelo Algarve enquanto destino de referência para a prática de caminhadas na Europa. Este reconhecimento resulta da votação levada a cabo pelos assinantes de revista alemã da especialidade (mais de 35 mil seguidores) que escolheram esta região como a mais popular para esta actividade, depois dos Dolomitas (1.º lugar) e da Bretanha (2.º lugar).
Este reconhecimento deve deixar-nos orgulhosos e satisfeitos. O percurso que a região tem vindo a percorrer nos últimos 20 anos ao nível da diversificação da oferta e da aposta em outros segmentos que não o Sol e Praia ou o Golfe, revela que algo foi bem feito e que os resultados estão à vista. Claro que isto já era percepcionável por quem, como eu, acompanha profissionalmente esta área desde 2004. Mas é preciso uma evidência destas, vinda de fora, na forma de um prémio, para que todos, mesmos os mais cépticos e desinteressados, festejem a conquista.
O caminho foi árduo e nem sempre fácil. Naquilo em que tive o prazer de participar, relembro as dificuldades iniciais em conseguir, por exemplo, o envolvimento e apoio da Região de Turismo do Algarve para a Via Algarviana – projecto que coordenei entre 2004 e 2010 – que, somente em 2007, com as mudanças na sua direcção, permitiu novos horizontes e vontades em explorar e apoiar outros segmentos, incluindo o das caminhadas. Também recordo as centenas de reuniões de trabalho, nomeadamente com autarquias, com o intuito de explicar a pertinência deste projecto e seu potencial impacto na região, designadamente seu interior. O mesmo com a Rota Vicentina, projecto que igualmente acompanhei desde a nascença. Foram «partos» exigentes, com milhares de horas e papéis gastos em procedimentos, relatórios, candidaturas, pedidos de pagamento, pedidos de apoios, etc etc.
Sabíamos – a Associação Almargem sabia bem disto desde o início dos anos 90 – que a região tinha grande potencial para esta segmento. E hoje tal fica mais evidente.
Mas nem tudo são rosas e, ainda que tudo isto se revista de um positivismo incontestável, há que estar atento ao que se passa no terreno. Os caminhos, essa infra-estrutura essencial nesta actividade, vão perdendo o seu valor. Muitos estão a ser artificializados, ocupados ou até destruídos. Ao contrário de outros países, por cá pouco se protegem os caminhos públicos e mal se sabe quais – salvo honrosa excepção de Santa Bárbara de Nexe que, por iniciativa do seu presidente de junta, fez um trabalho notável de cartografia e classificação dos mesmos no seu território.
Por outro lado, o fenómeno de massificação também já se nota em alguns percursos específicos. O caso dos «7 Vales Suspensos» é exemplo disso. Este trilho é hoje palco de uma massiva procura, com claros impactos no local: imenso lixo, proliferação de trilhos, degradação da vegetação, barulho, invasão de zonas interditas, acampamento selvagem, entre outros aspectos pouco dignificantes da actividade e para o local. Mesmo a Rota Vicentina, no seu Trilho dos Pescadores, junto à costa, começa a ter picos de forte afluência nalguns sectores. Por tudo isto, importa encontrar formas de gerir cargas em zonas sensíveis.
Convém também salientar que esta actividade requer melhores qualificações dos seus profissionais. Um guia de caminhadas – ou outro qualquer, na verdade –, não significa apenas saber levar pessoas por um qualquer caminho. Tem de ter conhecimentos sobre o local, o seu património, seus valores e sensibilidades. Tem de saber sobre segurança e prevenção de riscos e estar capacitado a intervir em casos de acidentes. Tem de cumprir regras em áreas protegidas. Apesar disso, hoje, porém, basta obter um alvará e começar a guiar percursos, independentemente de onde for.
O Algarve tem hoje infra-estruturas que estão na base deste reconhecimento, sobretudo a Via Algarviana e a Rota Vicentina. Há que saber apoiá-las, cuidá-las, mantê-las e garantir a sua boa gestão. O envolvimento das entidades publicas e privadas é, neste capítulo, essencial.
Mas também é a necessidade de olhar o Algarve no seu todo e decidir o futuro da actividade na região. É preciso mais percursos pedestres? Então e as centenas que já existem cuja manutenção de muitos ninguém a faz? Ou aqueles instalados em locais completamente despropositados e sem qualquer mais valia para o destino e para a actividade em si? Há sempre coisas a fazer. É natural. A realidade assim nos vai alertando, seja ela a realidade regional ou a internacional. Não esqueçamos que não estamos sós neste mundo competitivo que é o turismo de natureza.
Mas por agora aproveitemos o momento e celebremos esta notícia. O Algarve está de parabéns e todos os que trabalharam para isso merecem um agradecimento. O Turismo do Algarve, a Associação Rota Vicentina, a Associação Almargem, os municípios e muitas empresas que operam neste sector.
O Algarve já é um destino de excelência para o Sol e Praia, o Golfe e agora para as Caminhadas. Mas o Algarve pode ser muito mais. Pode ser um destino de excelência de usufruto responsável da Natureza e da Cultura cujo potencial tem muito por desenvolver. Vamos a isso!
João Ministro é empresário e engenheiro do ambiente
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