Há noites em que um gajo devia simplesmente ir dormir em vez de ver notícias. Mas não. Há gente pensa: “Só mais cinco minutos.” E quando dá por isso já está a assistir ao resumo diário da desgraça humana e não estou a falar do Big Brother.

Ainda agora tínhamos saído da Páscoa, essa época bonita de fé, esperança e redenção, e volta a programação normal: guerras, bombardeamentos, gente a fugir com a vida num saco de plástico e famílias no supermercado a fazer contas para decidir se levam carne, se compram uma bilha de gás ou se metem combustível no carro. Os preços sobem todos os dias. Só a paciência das pessoas é que parece estar sempre em saldos. Entre uma reportagem sobre crianças que morrem em guerras que ninguém percebe bem e outra sobre reformados que têm de escolher entre aquecer a casa, comprar medicamentos ou comer qualquer coisa que não seja sopa de ar… dei por mim a pensar naquela velha pergunta: onde anda Deus no meio disto tudo? Fui dormir com isso na cabeça. E nessa noite tive um sonho estranho. Sonhei que a pergunta finalmente chegava ao destinatário e que Deus respondia. A resposta não veio com nuvens, anjinhos, harpas nem trombetas. Veio por email e começava assim:

Caros humanos, é Deus quem vos escreve.

Sim, o original. Não o Deus das correntes de Facebook da vossa tia, nem aquele que promete prosperidade se disserem “amém” nos comentários. Confesso que quando comecei o universo imaginei muitas coisas: galáxias, estrelas, civilizações inteligentes… mas aquilo que vocês conseguiram fazer com o planeta também me surpreendeu. E não necessariamente pela positiva. Começo por esclarecer uma coisa: essa história de que vos criei à minha imagem é profundamente ofensiva. Eu não vos fiz assim. Nem me conhecem bem e já andam a difamar-me há dois mil anos. Eu não vos fiz assim. Vocês é que se fabricam uns aos outros todos os dias. Criam filhos a ensinar obediência, hierarquias e ideias feitas e a não fazer muitas perguntas, a não desafiar a autoridade… e já agora a não me questionar também, porque “Deus sabe o que faz”. Curiosamente, vocês raramente se questionam a vocês próprios.

A verdade é simples: vocês não acreditam propriamente em mim. Acreditam naquilo que vos dá mais jeito em cada momento. E, para ser honesto, a esta altura… eu é que já não acredito muito em vocês. Olho para o mundo e vejo pequenos gestos de bondade perdidos no meio de toneladas de sofrimento. Vejo amor a acontecer em pequenas esquinas, enquanto avenidas inteiras estão cheias de ódio. Já tentei ignorar, até porque vocês não são a única civilização do universo e há planetas neste momento bem mais interessantes. Alguns conseguem passar séculos sem se matarem por causa das religiões, ganância ou da ambição de meia dúzia de iluminados.

Na Terra continuam católicos, protestantes, muçulmanos e judeus a discutir quem tem o Deus verdadeiro. Às vezes discutem, outras insultam-se… e em dias mais animados matam-se em nome daquele que todos dizem representar o amor. Admirável coerência.

Aos cristãos digo: rezar vinte pais-nossos não apaga automaticamente as porcarias feitas durante o dia. O que apaga é arrependimento verdadeiro… e, sobretudo, não voltar a fazer a mesma coisa outra vez. Aos muçulmanos esclareço: não existe aqui um armazém com 72 virgens à espera de mártires. Nem 72, nem 12, nem duas. Passado tanto tempo e ainda não perceberam bem a ideia de que fazer o bem não é matar. Aos judeus: rezar depois das refeições é bonito, mas talvez também fosse bom pensar em quem produziu esses alimentos e que mal consegue sobreviver. Aos protestantes: Protestantes, sei que quiseram simplificar a religião e afastar-se da ostentação católica. Mas obrigar crianças a decorar páginas e páginas de um livro cheio de guerras talvez não seja o método pedagógico mais leve. Algumas lições também estavam bem explicadas nos Três Porquinhos. E aos ateus deixo apenas uma sugestão: passem menos tempo a tentar provar que eu não existo e mais tempo a fazer aquilo que dizem que devia substituir a religião, espalhar empatia, igualdade e compaixão. Porque a verdade não é a inexistência de Deus. A verdade é que a felicidade continua a ser uma raridade coletiva.

Porque a verdade é esta: metade do mundo vive na miséria para que outra metade viva apenas “mais ou menos”, enquanto uma pequena minoria vive como se o planeta fosse propriedade privada. E depois perguntam-me: “Porque é que Deus permite isto tudo?” Vou dizer-vos uma coisa que talvez vos choque: Deus não sou eu. São vocês. Sempre foram!

Inventaram-me e depois começaram a atribuir-me responsabilidades pelas escolhas que vocês próprios fazem. A sério que precisaram de um profeta a subir a um monte para vos dizer que matar, roubar e mentir não era grande ideia? Existe apenas uma regra moral que realmente interessa: tratem os outros como gostariam de ser tratados. Só isso. Vocês construíram aviões, pontes gigantes, redes digitais, foram à Lua e enviaram sondas para Marte… mas continuam com dificuldade em não serem uns idiotas uns com os outros. Tinham um planeta cheio de recursos. Água, florestas, alimentos, energia natural. Mas decidiram complicar. Agora passam a vida a trabalhar para pagar aquilo que antes estava simplesmente aí. Trabalham cinco dias por semana para pagar aquecimento, comida e abrigo. Transformaram-se em escravos da segunda-feira. Chamaram pecado ao prazer e criaram instituições que falam de pureza enquanto escondem crimes debaixo de batinas. Por isso deixo-vos um conselho simples: Façam mais amor e menos guerras. Pode ser que um dia ainda me surpreendam. Até lá… não se preocupem muito em saber se Deus existe. Preocupem-se antes em tentar provar que a humanidade merece existir.

Com os melhores cumprimentos,

Deus

Júlio Ferreira é um inconformado encartado

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